O momento liberal

Joel Pinheiro da Fonseca

A oposição ao governo definitivamente perdeu o medo das ruas e não vai descansar até que alguma coisa mude. A revolta é geral. Está muito claro quais são os alvos da indignação: Dilma e o PT. Só não está claro ainda o que gostariam de colocar em seu lugar. Por isso, às vezes, os protestos, embora cheios de gente, pareçam um pouco vazios.

Alguns exigem apenas ética. Outros veem a queda da presidente como panaceia de nossos males políticos. Só que não adianta trocar de presidente se for para ter mais do mesmo. O ódio da vez é contra o PT, mas o desencantamento é com a política em geral, que, por sua vez, dá respostas pouco animadoras.

Contra a corrupção, nossos representantes propõem o fim do financiamento empresarial de campanhas e o aumento do fundo partidário. Proposta nova que é, na verdade, velha: foi a lei vigente até 1993 e não impedia corrupção alguma. Além disso, aumentar o fundo é dar aos políticos ainda mais poder.

As mesmas caras se oferecem como a solução da vez, enquanto a população se sente alienada. O que está em jogo é o próprio ideal de sociedade que queremos e sua relação com o Estado.

Esse mesmo Estado é onipresente no peso dos impostos, das leis e das regulamentações, na burocracia e na violência contra expressiva parcela da população. Ao mesmo tempo, é ausente no que se propõe a oferecer e na capacidade de responder às demandas.

A causa liberal cresce e está amadurecendo. Resta aos seus defensores encontrar a voz certa para promover essa transformação no país

Diante disso, tem crescido a força da bandeira liberal, visível no 15 de março e ainda mais presente nos protestos deste domingo (12). A causa liberal cresce e amadurece. Primeiro com institutos, centros de pesquisa, sites e revistas. Agora com conferências, ambições políticas, partidos e movimentos organizados.

O liberalismo não é o reduto de economistas e banqueiros engravatados. Supera também as cansadas dicotomias entre direita e esquerda e situação e oposição.

Dá mostras de renovação com uma sensibilidade social mais afinada e é capaz de abraçar o bolsa-família, ao mesmo tempo que denuncia o compadrio nocivo de grandes empresas com o poder estatal. Só que em vez de pedir ainda mais Estado, aposta nas trocas voluntárias e no empreendedorismo, que já é característico do brasileiro, ainda que asfixiado pelo sistema atual.

O liberal luta pela simplificação de nossa carga tributária. Não quer só privatizar, mas, sim, criar mercados mais dinâmicos, mais variados e abertos à concorrência. Avalia políticas sociais não pelas intenções, mas pelos resultados. Prioriza a educação básica, estimulando e replicando experiências de sucesso.

O liberal defende que o Brasil se integre economicamente ao resto do mundo. Propõe mais autonomia para Estados e municípios. Almeja tomar a vanguarda de debates culturais e sociais, como pautas LGBT, bioéticas, reprodutivas, política de drogas e propriedade intelectual.

Sem se esquecer da liberdade de expressão e de consciência, legados inegociáveis do liberalismo clássico à civilização.

Os liberais propõem o que nenhum dos atuais tripulantes do Estado quer fazer: a redução do Estado para liberar as forças sociais e econômicas reprimidas. Precisamos de líderes políticos novos e corajosos para defender limites à própria política, que se façam reais servidores, e não patrões da sociedade.

Aos defensores da mensagem liberal resta encontrar a voz certa para promover essa transformação. Um Brasil mais rico, mais justo, mais livre e mais feliz é possível.

Fonte: Folha de S. Paulo, 14/4/2015

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