Monica de Bolle: As rosas eram todas amarelas

Visto de longe, o Brasil é país desconfigurado e distorcido, um Picasso sem harmonia. país onde as rosas estão todas amarelas, mas ninguém ousa dizê-lo

Já não leio os artigos dos poetas. Já não acompanho a mitologia contemporânea. Sofisticado não é o debate sobre as reformas e a conjuntura brasileiras. Mas, para não dizer que não falei das flores, vejo o Brasil no embalo da música de Jorge Ben Jor: o quadro é amarelo, não róseo, não azul, não esperançoso. Sob o risco de irritar torcedores e de ser acusada de pessimista, para quem olha de fora, o Brasil ainda vai mal. E as reformas necessárias feitas no afogadilho e já desfiguradas não permitem tanta satisfação e conforto.

Dizer que a polarização no Brasil piorou é clichê. Mas a polarização no Brasil piorou. Há os que defendem as reformas sem querer considerar que seus impactos vão além das contas públicas – e que seu objetivo não pode ser único, não pode restringir-se apenas a consertar o quadro fiscal. O teto dos gastos, a reforma da Previdência, a reforma trabalhista, todos têm efeitos multidimensionais – afetam as relações de trabalho, afetam a alocação de recursos, afetam os incentivos à educação. Se o indivíduo tiver de trabalhar mais tempo para receber aposentadoria integral, como isso afeta seus incentivos de qualificar-se mais antes de entrar no mercado de trabalho, sobretudo se não nasceu em berço esplêndido? Essa é uma pergunta que a reforma da Previdência deveria contemplar, ainda que os números que revelam a insustentabilidade do sistema atual sejam implacáveis. Entretanto, em matéria de política pública, o governo Temer teima em priorizar a questão fiscal de médio prazo acima de qualquer outra consideração, o que pode gerar efeitos indesejáveis à frente. Qualquer eventual desincentivo à educação, por exemplo, torna o Brasil ainda mais improdutivo do que já é, afetando o crescimento futuro.

É curioso o holofote de médio prazo. O governo que em breve completará um ano quer ser reconhecido como reformista, quer entrar para a história como aquele que finalmente modernizou o país. Enquanto isso, registra rombos notáveis nas contas públicas – e já não é tão possível assim jogar a culpa no governo anterior pelos resultados dos três primeiros meses de 2017, menos ainda na falta de marido –, muda metas fiscais porque baseara suas projeções anteriores em promessas quase inalcançáveis de crescimento econômico, insiste em não reverter o que houve de pior no governo de Dilma Rousseff para as contas públicas brasileiras e para a alocação de recursos: a totalidade das desonerações afobadas adotadas em 2012 e 2013 para desafogar a economia. Ênfase na palavra totalidade – afinal, algumas desonerações foram, sim, revertidas. Contudo, muitos gastos também foram elevados para garantir o apoio parlamentar às reformas, exemplo notável de falta de consistência intertemporal.

Usa o governo incansavelmente o mote da inflação em queda e da melhoria do poder de compra das famílias para sustentar o otimismo dos mercados, enquanto o desemprego sobe para 13,7%. É verdade que o desemprego sempre reage com atraso durante fases de recuperação da economia. Mas, 13,7%, 14 milhões de desempregados? De que adianta dizer a essas pessoas que é só esperar mais um pouquinho? Surpreende que haja tanta insatisfação no país?

E, diante de tudo isso, como não ver na insatisfação popular risco político demasiado elevado para 2018? Como não perceber que o discurso do “estamos no caminho certo” rejeitado por uns 80% da população brasileira e revelado na pesquisa Datafolha – goste-se da pesquisa ou não – é o caminho certo para o populismo de esquerda ou de direita no ano que vem? O populismo, afinal, não é só o modismo internacional do momento. É também nosso mais fiel algoz em momentos de profunda desilusão. Onde estão os analistas ponderados de outrora para dizer que a complacência semeia a descontinuidade das reformas que pode sair dar urnas em 2018?

Fonte: “O Estado de S. Paulo”, 03/05/2017

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