José Inácio de Abreu e Lima, que dará nome à refinaria que a Petrobras constrói nas imediações do Recife, foi um homem que viveu de forma extremada as ideias de seu tempo. Todas elas. Com a idade de 23 anos, apoiou o movimento republicano que aconteceu em Pernambuco em 1817 – tendo deixado o país após a derrota da insurreição.

Mudou-se para a Venezuela e, ali, alistou-se nas tropas de Simón Bolívar que lutavam pela independência da “Pátria Grande”. Herói, chegou ao topo da hierarquia mas não teve a patente de general reconhecida pelos sucessores do “Libertador”.

Decepcionado, voltou ao Brasil e, com o mesmo entusiasmo com que defendia os ideais republicanos, passou a defender o império de seu país. Abreu e Lima dedicou a Dom Pedro II um compêndio sobre a História do Brasil em que reduz a revolução pernambucana a uma desavença entre portugueses e brasileiros e justifica cada uma das falhas cometidas pelo pai e antecessor do imperador, Pedro I.

A mudança de lado, seguida pela defesa firme da posição do momento, se reproduz agora nos capítulos da novela em torno da construção da obra que levará seu nome.

A obra está adiantada e, como se sabe, é ou deveria ser uma parceria entre a Petrobras e a PDVSA, estatal que explora o petróleo da Venezuela. Foi anunciada com festa em 2007 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo governante da Venezuela, Hugo Chávez.

Na época, a Venezuela nadava em dinheiro e a estatal daquele país era vista e fazia questão de agir como a parte forte do negócio. No anúncio da parceria, louvou-se a capacidade financeira da empresa venezuelana e à grande contribuição de seu conhecimento ao negócio do petróleo no Brasil.

O tempo passou, as circunstâncias mudaram, o preço do petróleo caiu e o dinheiro malgasto por Chávez na época da fartura sumiu. Agora, depois de tentar junto ao BNDES um empréstimo sem garantias para bancar a parte que lhe cabe, tudo indica que a Venezuela mudará de posição e sairá do negócio antes do fim de agosto.

A empresa de Chávez certamente virá com a desculpa de que os custos fugiram ao controle e que os preços estão muito acima dos previstos quatro anos atrás. Sem fazer a defesa de ninguém (mesmo porque, falar do preço de qualquer obra pública no Brasil exige cautela), é lógico que não houve, em relação aos valores anunciados na celebração da parceria, qualquer elevação que não se justifique pela alta exagerada do real e pela elevação geral de custos provocada pelo aquecimento da economia brasileira.

Mesmo assim, Chávez tentará empurrar para o lado brasileiro a responsabilidade por sua desistência. Para a Petrobras e para o Brasil, não poderia ter acontecido melhor negócio. Assim como Abreu e Lima se decepcionou com os sucessores de Bolívar, a Petrobras de agora se deu conta de que os ideais “bolivarianos” mudam ao sabor da cotação do petróleo. Ter a turma do “socialismo do século 21” como aliada já não é fácil. Tê-la como sócia seria se candidatar a uma dor de cabeça permanente.

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