Mudanças na política econômica chinesa

Este ano a liderança política chinesa será substituída no poder por nova geração. Tendo sido os novos líderes selecionados pelos atuais governantes e pela burocracia do Partido Comunista da China, não é o caso de esperar alterações dramáticas de rumo. Por seu lado, há certo consenso entre os analistas de que, principalmente na economia, a China vai experimentar mudanças que devem começar a ficar mais evidentes no congresso quinquenal do partido no fim do ano.

As mudanças, diga-se de passagem, devem ocorrer mais por necessidade do que ideologia. A estabilidade política na China depende da manutenção do crescimento acelerado e, em especial, da geração de empregos. Em que pesem as elevadas taxas de expansão dos últimos anos, o país vem enfrentando desequilíbrios importantes e há a visão de que, sem mudança de rumo, a taxa de crescimento pode cair significativamente daqui a alguns anos.

A crise financeira internacional, como se sabe, levou a forte desaceleração na expansão das exportações chinesas, esfriando o setor mais dinâmico da economia do país nas décadas anteriores. Desde então, a China vem sustentando o crescimento com base em forte expansão do crédito público e política monetária relativamente frouxa. Com isso, tornou-se ainda mais dependente da expansão do investimento, financiado por empréstimos a baixo custo de bancos estatais, que captam recursos a juros reais negativos graças à forte repressão financeira que impera no país.

O resultado até pouco tempo foi um setor de construção imobiliária superaquecido, inflação em alta e governos locais muito endividados e em muitos casos sem capacidade de honrar as dívidas. Em 2011, o governo tirou o pé do acelerador, contendo o crédito, aumentando os compulsórios sobre depósitos bancários e impondo restrições à compra de imóveis para investimento. Ainda assim, o preço de imóveis nos grandes centros é alto, a inflação não parece dar trégua e a situação dos governos locais, que derivam grande parte das suas receitas da venda de terras, se complicou com o esfriamento da atividade de construção.

Nesse quadro, o novo governo vai enfrentar desafios de curto e médio prazo. Os primeiros dizem respeito à estabilização incompleta da economia, depois das medidas excepcionais adotadas em 2009 em resposta à crise: em especial, controlar a inflação, que, apesar das estatísticas oficiais benignas, continua a gerar descontentamento, e resolver a situação fiscal dos governos subnacionais, problema com fortes implicações para a saúde dos bancos. Isso deve limitar o crescimento do PIB nos próximos anos a uma média de 8,5% contra taxas na faixa de 10% ou mais nos últimos anos.

Mas o maior desafio será o de reestruturar a economia de forma a permitir a sustentação do crescimento acelerado a médio prazo. Essa questão vem sendo colocada na China como o desafio de evitar que o país caia na chamada “armadilha da renda média”: a tendência de os países em desenvolvimento, depois de crescer rápido enquanto escapam da fase de pobreza, verem o crescimento estagnar.

Evidência desse fenômeno é o pequeno número de países que conseguiram elevar a renda de média para a alta. O Brasil é bom exemplo. Entre 1930 e 1980, a renda per capita brasileira cresceu em média 3,9% ao ano, multiplicada por quase sete; já entre 1980 e 2010, o aumento médio ficou em apenas 1% ao ano. Assim, o país foi bem-sucedido em sair da pobreza, mas não em pular de uma renda média para o padrão dos países ricos.

A China vem sinalizando nos últimos tempos o que pretende fazer para evitar cair na mesma armadilha: reorientar a demanda em direção ao consumo doméstico; abrir a conta de capital e, consequentemente, promover alguma liberalização do mercado financeiro doméstico; expandir a economia em direção a setores mais intensivos em tecnologia e ambientalmente mais limpos; e melhorar a distribuição regional da riqueza.

Não é desafio pequeno mesmo para uma economia em que o governo dispõe de tantos instrumentos e poder como na China. O esforço de elevar o gasto de consumo das famílias chinesas até agora não surtiu efeito: elas continuam poupando como sempre. Mas, ao mesmo tempo, não se deve desprezar o dinamismo que traz nova liderança e o ímpeto que vai lhe dar o receio de que o país, se sofrer desaceleração mais grave do crescimento, possa experimentar séria crise política.

Fonte: Correio Braziliense, 01/02/2012

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