Múltiplas visões

Os dois scholars chineses que participam da Conferência da Academia da Latinidade, que está sendo realizada este ano no Rio, na Universidade Candido Mendes, Tong Shijun, vice-presidente da Academia Social de Ciências de Xangai, e Wang Ning, professor das Universidades de Xangai e de Tsinghua, trataram a questão democrática como uma consequência da modernidade, mas defenderam a tese de que não existe um modelo único de modernidade, assim como pode haver múltiplas democracias.

O modelo de modernidade chinês seria uma alternativa ao conceito globalizado de modernidade e daria margem à existência de diversos tipos de democracia. Na sua palestra, o professor da Universidade de Xangai Wang Ning definiu as diversas características das modernidades chinesas, uma das quais é ser o contrário do modelo ocidental, que seria centralizado.

O modelo chinês sofre intervenções também da periferia, com seu centro monolítico se dividindo em diversos centros. Isso é explicável pelo fato de que a China vem se desenvolvendo de maneira assimétrica. Em Pequim, Xangai, Shenzhen e em outras cidades costeiras, surgem sintomas pós-modernos, como se essas cidades fossem metrópoles ocidentais desenvolvidas. Mas várias cidades médias no interior do país ainda estão em processo de modernização.

Outra característica chinesa é que a modernidade pode ser paradoxal. No plano doméstico, ainda está por ser construída, mas em termos internacionais já é uma realidade. O processo de globalização permitiu à China uma mudança rápida rumo ao desenvolvimento, mas a globalização não se completa se não for assimilada localmente.

Nesse contexto, o professor Wang Ning admite que economicamente a China tem que observar as regulamentações da Organização Mundial do Comércio (OMC) e de outras instituições globalizadas das quais participa; mas, política e culturalmente, a China ainda tem suas idiossincrasias próprias e únicas tradições e condições, e, por isso precisa atuar nos dois campos, local e global.

O professor acha que a reconstrução da modernidade chinesa, embora desigual e diversificada , servirá com o grande contribuição para a realização de um projeto global que ainda está incompleto.

Complementando esse pensamento, o professor Tong Shijun parte do princípio de que a democracia é uma forma de convivência em sociedade que pode ser definida como o exercício de uma “autonomia responsável” pelo cidadão.

Sendo assim, se existem “múltiplas modernidades”, a democracia, como um elemento fundamental da modernidade, pode também ser decupada em múltiplas facetas, de acordo com as condições particulares de cada nação. Ele usa a definição do filósofo chinês Feng Qi, que dizia que toda ação moral deve observar dois princípios básicos: o da razoabilidade e o do livre-arbítrio, que definiriam a “autonomia responsável”. Mas esses dois princípios recebem diferentes prioridades no Ocidente e na China, ressalta o professor Shijun, o que justificaria a existência de “múltiplas democracias”.

Uma das maiores tarefas dos chineses nos tempos modernos tem sido, ressalta Feng Qi, aprender com o Ocidente o respeito pela livre escolha individual, ao mesmo tempo em que valoriza o papel positivo da tradição que leva a que o cidadão baseie seu livre-arbítrio no critério da razoabilidade, que para os chineses tem precedência sobre a vontade individual. Essas “condições particulares” de cada nação é que justificariam o modelo de “múltiplas democracias”.

O professor Tong Shijun diz que na China, por exemplo, há a tradição de respeitar o professor e valorizar a educação, e o modelo professor-aluno tradicionalmente é muito influente na sociedade. Uma boa consequência disso é que pessoas mais bem educadas e com experiências ricas podem mais facilmente ganhar o respeito de outras pessoas, e a maioria das pessoas pode mais facilmente ser convencida de que deve ouvir aqueles que são mais sábios e virtuosos.

Na China, o nível de democracia em uma comunidade tende a ser medido pelo grau de atendimento dos reais interesses do cidadão e pela eficiência de seus líderes nesse atendimento, muito mais do que pelos procedimentos formais através dos quais os interesses da população são encaminhados. As diversas formas de decisão coletiva estão em discussão na China, destaca o professor Tong Shijun, e também o interesse individual pela sua comunidade e o nível de confiança que os cidadãos têm em suas próprias opiniões.

Ele ressalta que nos últimos anos existe um grande empenho para que se adote no país uma forma de “democracia socialista com características chinesas”, embora essa ainda seja uma questão em debate.Assim como se debatem experimentos como a “democracia intrapartidária” ou a “democracia consultiva”, que seria a democracia direta.

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2 comments

  1. Eu tive o infortúnio de viver 5 anos na China. É uma ditadura nojenta. Chega de intelectualismos, pelo amor de Deus.

  2. Eu tive o infortúnio de viver 5 anos na China. Trata-se de uma ditadura nojenta. Intelectualismos…