Munição contra a recessão

A pergunta mais insistente hoje é: haverá munição suficiente para neutralizar a desaceleração global, transformando-a, pelo menos, num “pouso suave”? Em 2009, os banqueiros centrais, liderados pelo Fed, conseguiram resultados até surpreendentes.

Houve rápida reversão e retomada nas economias emergentes, com a China e Índia, interrompendo uma queda abrupta do PIB ao fim de 2008. Em meados de 2009, eles já cresciam a dois dígitos.

O Brasil teve sua reversão positiva induzida pela China (leia-se, preços de commodities) e pelas medidas contracíclicas de Lula e sua equipe.

E nas economias maduras, embora os esforços do Fed e do BCE tenham demorado a render resultados, vieram em 2010, considerado um ano brilhante, de “pós-crise”.

Mas que pós-crise? Nunca houve final da crise planetária, apenas a pedalada engenhosa da demanda global, embalada pela contribuição asiática.

Responder à pergunta sobre a munição no paiol dos bancos centrais é inverter o foco do desafio dos campos fiscal e financeiro para o monetário.

Esse “milagre” já foi praticado por Alan Greenspan. Quase sempre funciona bem, por algumas rodadas, desde que ainda haja espaço fiscal para tanto.

Responder à pergunta sobre a munição no paiol dos bancos centrais é inverter o foco do desafio dos campos fiscal e financeiro para o monetário

Esse espaço foi usado e abusado desde 2009. Os fantasmas saíram todos do armário e se transformaram em epidemia generalizada nos balanços públicos.

A Espanha encarna bem este dilema. O setor público espanhol tem tamanho déficit fiscal acumulado e projetado que não consegue acrescentar mais a conta do resgate dos bancos espanhóis, daí havendo solicitado à Comunidade que os socorra diretamente.

Mas em que rubrica fiscal a União Europeia o faria, se não tem base própria de arrecadação? E como criá-la da noite para o dia?

Esta é a segunda questão: a defasagem entre as medidas fiscais e seu período de maturação. Os políticos se desesperam buscando medidas “emergenciais”.

Nos EUA, ouviremos essa toada neste semestre eleitoral, em que se tornará clara a diminuição de resultados das empresas não financeiras, último bastião da atividade econômica positiva.

Resumindo, um choque de hiperliquidez (afrouxamento monetário) tem efeito sempre inverso ao nível do constrangimento fiscal de um país, medido pelo déficit fiscal preexistente e pelo tamanho da dívida pública acumulada.

Quanto maiores forem o déficit e a dívida precedentes, menores as chances de repercussão do choque de emissão de moeda e maior a necessidade da dose.

Só que, quanto maior a dose, mais devastadora será a sequela do bumerangue especulativo, ou seja, menos dinheiro novo emitido correrá para o financiamento da produção e mais servirá para especular em ativos de risco, primeiro apostando na alta e, em seguida, na baixa dos mercados.

Estamos na fase baixista. Daí o temor quase pânico dos banqueiros centrais de entrarem para a história como os caras que “detonaram” o resto da sanidade que resta na cabeça dos líderes mundiais.

Por isso, eles pedem o ajuste fiscal já. Este, contudo, exigiria ainda mais coragem política: a de atribuir perdas definitivas aos amigos do poder.

Fonte: Brasil Econômico

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