A muralha da China

A China teve crescimento impressionante baseado em taxas de poupança e investimento elevadíssimas, baixa remuneração dos trabalhadores, cultura de trabalho intensa, investimento maciço em educação, grande disponibilidade de mão de obra e outros fatores.

Mas o país agora tem dificuldade em sustentar seu patamar de crescimento em função da grande concentração de poder no governo central e no Partido Comunista e da pouca transparência.

Essa concentração funcionou no início do processo de crescimento, mas, quanto mais desenvolvida uma economia, mais ineficiente é a intervenção do Estado. Na China, a economia se ressente de mecanismos de mercado que gerem eficiência e equilíbrio na alocação de recursos e preços.

Por isso, são crescentes as dúvidas sobre como o país vai se adaptar e evoluir a partir de uma economia maior e mais moderna. Mas é uma economia que ainda cresce a taxas elevadas (6% a 7% ao ano), embora analistas já suspeitem que a taxa real possa ser menor.

Quanto mais desenvolvida uma economia, mais ineficiente é a intervenção do Estado

Na Índia, outro gigante emergente em termos demográficos e econômicos, a situação é outra. Maior democracia do mundo, o país elegeu no ano passado o governo liberal do premiê Narendra Modi, que vem adotando políticas pró-mercado e incentivos ao empreendedorismo, com redução da burocracia e aumento dos investimentos em infraestrutura, além de reforço à credibilidade do Banco Central.

O Banco Mundial já prevê que, mantendo-se os padrões atuais, o crescimento da Índia possa ultrapassar o da China já em 2017. Vários fatores podem influir nessa trajetória. Mas o fato de a Índia ser uma democracia joga a seu favor.

O empreendedorismo e a inovação, essenciais ao crescimento sustentável, são mais estimulados em sociedades estáveis e economias abertas que respeitam a propriedade privada. Outra vantagem é o fato de que a população indiana ainda cresce, enquanto a da China diminui.

Essa corrida de desenvolvimento entre os dois traz e trará lições importantes, principalmente aos emergentes. A China já provou sua capacidade de se transformar e evoluir. Passou do extremo ideológico ao pragmatismo sob a liderança de Deng Xiaoping, buscando na economia, na ciência e na gestão pública soluções mais eficazes a cada um de seus problemas.

Mas a China pode ter encontrado uma muralha de difícil transposição já que um de seus maiores problemas para seguir evoluindo é seu sistema político. O PC mostrou bastante flexibilidade ao abandonar o dogmatismo e adotar princípios capitalistas que antes abominava. Será que o PC terá o mesmo desprendimento e pragmatismo para afrouxar as rédeas do poder?

Fonte: Folha de S. Paulo, 12/4/2015

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