Quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Na hora do aperto, os corajosos dão no pé

Por mais que os defensores do governo batam nessa tecla, não está em curso no Brasil qualquer ensaio de golpe contra a presidente Dilma Rousseff. E, por mais que se acuse a oposição de atentar contra a democracia ao pedir a saída dela do poder, não é isso que se vê no exercício do direito de manifestação por parte de quem é contra o governo petista. Como se não bastasse a obviedade dessas constatações, é bom lembrar que as manifestações contra Dilma (com exceção de acontecerem em domingos — para não prejudicar o ritmo normal de pessoas que trabalham) em nada diferem daquelas que os petistas e seus aliados fizeram e voltarão a fazer contra qualquer adversário que chegue ao poder pelo voto. Travestidos de “movimentos sociais”, petistas ocuparam a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, aos gritos de “Fora FHC!” horas depois da posse de Fernando Henrique Cardoso para o segundo mandato. Caso isolado? Nada disso! Tente adivinhar os nomes dos partidos que lideraram em Belo Horizonte o movimento “Fora Lacerda!”, contra o atual prefeito, e certamente achará os mesmos que hoje defendem Dilma com unhas e dentes.

É natural que em momentos de ânimos acirrados, como o atual, pessoas de um lado ou de outro digam besteiras logo tomadas pelos adversários como o pensamento geral do “outro lado”. Do mesmo modo que existem entre os que se opõem à presidente uns poucos equivocados que consideram a volta dos militares ao poder a solução para os problemas do país, existe do lado dos governistas argumentos imbecis como o do presidente da CUT, Wagner Freitas, que ameaçou pegar em armas para defender o governo das ameaças golpistas. A história está cansada de mostrar que jactâncias como essa não devem ser levadas a sério. Sob ataque dos (esses, sim) golpistas chefiados por Augusto Pinochet, o presidente chileno Salvador Allende esperou até o fim pela ajuda do Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR, na sigla em espanhol) que jurou pegar em armas para defendê-lo. Acontece que os companheiros na hora de mostrar sua coragem, deram no pé e deixaram Allende sozinho diante da horda de militares.

Dinheiro a rodo

Certamente alguém com um pouco mais de bom senso deve ter chamado Freitas no canto e mostrado a ele que o discurso feito na quinta-feira passada, dentro do Palácio do Planalto, foi um tiro no pé da presidente. Talvez até tenham dito que, desse jeito, ficará difícil para o governo continuar soltando dinheiro a rodo para abastecer o movimento sindical neste momento em que o governo corta investimentos e arrocha a classe média com impostos cada vez mais altos. Tanto assim que o corajoso presidente da CUT logo tentou minimizar o efeitos de suas diatribes e disse que as armas a que ele se referia eram as da democracia e coisa e tal. Mas o que ele falou está gravado. Ponto final.

Estados Unidos?

No clima que se criou, tomara que as manifestações marcadas para hoje transcorram em clima de tranquilidade. Que os manifestantes deem seu recado e voltem para a casa com a consciência do dever cumprido. E que o governo reconheça que a crise foi criada por ele (e não pelos Estados Unidos, como insiste em dizer o ex-presidente Lula) e encontre uma saída que não virá enquanto o Planalto continuar achando (com todo respeito) que a Marcha das Margaridas é a expressão do desejo do país inteiro.

Fonte: Hoje em dia (R7), 16/8/2015

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