Por Gary Becker (Prêmio Nobel de Economia) e Kevin Murphy, Professores da Chicago University – 19.03.2009
Tradução do Inglês: Álvaro Pedreira de Cerqueira

O capitalismo foi ferido pela recessão global, que infelizmente piorará antes que melhore. Como os governos continuam determinando quantas restrições querem impor aos mercados, especialmente aos mercados financeiros, a destruição de riqueza pela recessão deve ser colocada no contexto e comparada com a enorme criação de riqueza e melhora do bem-estar durante as três décadas passadas. As reformas financeiras e outras não devem se arriscar a provocar a destruição da fonte desses ganhos de prosperidade.

Considere a extraordinária estatística seguinte sobre o desempenho da economia mundial desde 1980. O produto doméstico bruto mundial cresceu cerca de 145 por cento de 1980 a 2007, ou com uma média de cerca de 3,4 por cento ao ano. A assim chamada ganância capitalista que motivou homens de negócios e trabalhadores ambiciosos, ajudou centenas de milhões de pessoas a sair dos grilhões da pobreza.

O papel do capitalismo na criação de riqueza ensejou o rápido crescimento da renda dos chineses e indianos, depois que eles introduziram reformas baseadas na economia de mercado (a China no final dos anos 1970 e a Índia em 1991). A saúde global, medida pela expectativa de vida em diferentes idades, também aumentou rapidamente, especialmente em países de baixa renda.

Naturalmente, o desempenho do capitalismo deve incluir esta recessão e outras anteriores, junto com a glória de décadas de sucesso. Mesmo que a recessão seja inteiramente considerada como culpa do capitalismo, e ele mereça uma considerável parte da culpa, as perdas induzidas pelas recessões são insignificantes em comparação com as grandes conquistas do capitalismo nas décadas anteriores. Suponha, por exemplo, que a recessão se converta em uma depressão, onde o PIB mundial caia em 2008-2010 em 10 por cento, uma suposição pessimista.

Então o crescimento líquido no PIB mundial, de 1980 a 2010, seria de 120 por cento, ou aproximadamente 2,7 por cento ao ano neste período de 30 anos. Isto permitiu a renda real per cápita aumentar em quase 40 por cento, embora a população mundial crescesse aproximadamente 1,6 por cento ao ano no mesmo período. Entretanto, na proposição de reformas que aspiram a reduzir a probabilidade de futuras recessões severas, as realizações do capitalismo devem ser consideradas.

Os governos não devem, assim, dificultar que mercados que foram impedidos de proporcionar crescimento rápido às economias pobres da África, da Ásia e de outras regiões (com o protecionismo) tenham participação limitada na economia global. As novas políticas econômicas que tentam acelerar a recuperação devem seguir o primeiro princípio da medicina: não causar dano. Isto leva o governos a uma visão comum mas equivocada, até entre muitos defensores do mercado livre, que é melhor fazer algo para tentar ajudar a economia do que não fazer nada.

A maior parte das intervenções, inclusive as políticas casuais, por sua própria  natureza, prejudicam em vez de ajudar, em grande parte acrescentando problemas à incerteza e ao risco que são já tão acentuados durante esta recessão. As reações dos governos demonstraram o perigo que as intervenções destinadas a ajudar podem é exacerbar o problema. Muito embora tivéssemos formuladores de políticas bem qualificados, fomos de erro em erro, desde agosto de 2007. As políticas das administrações Bush e Obama violaram o princípio do “não causar dano”.

As intervenções do Tesouro dos Estados Unidos nos mercados financeiros acrescentaram incertezas e reduziram a velocidade de resposta do mercado, que ajudariam a estabilizar e recapitalizar o sistema. O governo ignorou contratos e recompensou muitos daqueles cujas decisões erradas ajudaram a criar a desordem. Ele propõe ignorar até mais contratos. Em conseqüência das ações do Tesouro, vemos tomadas de decisão erradas no mercado, pois a propriedade do governo de grandes instituições financeiras ameaça substituir decisões de negócios por decisões políticas na administração dessas companhias.

Enquanto tais medidas dramáticas podem ser tomadas, elas provavelmente terão sérias conseqüências adversas. Esses problemas são sintomáticos de três falhas básicas na abordagem atual da crise. Eles são um diagnóstico por demais falho do problema, uma concepção errônea de que os fracassos de mercado são prontamente superados por soluções do governo e um fracasso em concentrar-se nos custos de longo prazo das atuais ações. O ímpeto de “resolver” os problemas da crise abriu as portas para ações do governo em muitas frentes. Muitas dessas ações têm pouco ou nada a resolver sobre a crise ou as suas causas.

Por exemplo, a administração Obama propôs fazer modificações nas políticas de mercado para fomentar a sindicalização e uma negociação mais centralizada de salários, embora a liberdade relativa de mercados de trabalho dos Estados Unidos de modo nenhum contribuísse para a crise e até ajudasse a mantê-la curta. Da mesma forma, o jogo contra o capitalismo e a “ganância” foi usado para justificar mais escrutínio antitruste, maior regulação de uma variedade de mercados, e uma expansão de controles de preço de serviços de saúde e farmacêuticos. A crise levou a uma ajuda financeira à indústria automobilística dos Estados Unidos com somas gigantescas, e a atribuir um papel temerário ao governo sobre como será resolvida.

Mesmo uma das idéias mais desacreditadas, o protecionismo, ganhou apoio sob a aparência da estimulação da economia. Tal política seria um grave erro. Elas não fazem mais sentido hoje do que fizeram há alguns anos e podem levar muito tempo para inverter.

O fracasso de inovações financeiras, como seguros apoiados por hipotecas secundárias, problemas causados por modelos de riscos que ignoraram o potencial de quedas íngremes nos preços dos imóveis, e a sobrecarga do risco sistêmico, representam claros fracassos de mercado, embora as inovações em finanças também contribuíssem para o crescimento econômico global nas três décadas passadas.

Quem cometeu erros perdeu, e muitos perderam bastante. As instituições que fizeram maus empréstimos e investimentos tiveram grandes perdas em sua riqueza, enquanto os investidores que financiaram essas instituições sem cuidadosa avaliação viram sua riqueza cair para a metade ou muito menos. As famílias que pegaram empréstimos exagerados também tiveram duras perdas.

Considerando as perdas, os atores nesses mercados têm um estímulo forte para corrigir os seus erros na próxima vez. Neste aspecto, muitas ações do governo foram contraproducentes, protegendo atores das conseqüências das suas ações e impedindo ajustes do setor privado. As incertezas da confusa política do Tesouro sobre o capital bancário e a estrutura da propriedade, a vontade do governo de modificar contratos de hipoteca e de dívidas, unilateralmente, e a natureza incerta da futura regulação e ajuda de subsídios impedem a maior recapitalização privada. Antes que resolver problemas, tais políticas tendem a prolongá-los.

A política de estímulo dos Estados Unidos cai na mesma categoria. Este pacote é em parte baseado na crença de que os gastos do governo devem estimular a economia porque os gastos privados seriam insuficientes. O foco em soluções do governo é especialmente decepcionante dado o seu histórico ineficiente com relação a crises nos EUA e muitos outros países, assim como o  fracasso em lidar com o furacão Katrina e escassa efetivadade para prosseguir a guerra no Iraque.

A reclamação de que a crise foi devida à insuficiente regulação também não é convincente. Por exemplo, os bancos comerciais estavam mais regulados do que a maior parte de outras instituições financeiras, ainda eles não tenham ido melhor, e de muitos modos pior. Os reguladores ficaram tomados da mesma mentalidade de bolha que os investidores e falharam em usar a autoridade reguladora disponível a eles.

A produção, o emprego e os ganhos foram todos batidos pela crise e piorarão antes que melhorem. Todavia, até os grandes declínios representam pausas no progresso de longo prazo se conservarmos os motores do crescimento de longo prazo no lugar. Este crescimento depende dos investimentos nos capitais humano e físico e na produção de conhecimento novo. Isto necessita um ambiente econômico estável. A incerteza sobre o alcance da regulação provavelmente terá a conseqüência não intencional de tornar aqueles investimentos mais arriscados.

A Grande Depressão induziu as pessoas a um abandono mundial maciço do capitalismo, e um abraço do socialismo e do comunismo, que continuou nos anos 1960. Ela também criou uma crença de que o futuro está na administração da economia pelo governo, não em mercados mais livres. O resultado foi o crescimento geralmente lento durante aquelas décadas, na maior parte do mundo menos desenvolvido, inclusive na China, nas nações do bloco soviético, na Índia e na África.

Em parte, devido ao colapso da construção de casas e dos mercados de capitais, a hostilidade aos homens de negócios e ao capitalismo cresceu fortemente outra vez. E ainda, num mundo que é principalmente capitalista, este é o “o único sistema” que pode produzir, além disso, grandes aumentos da riqueza e da saúde, tanto nas nações pobres quanto nas ricas. Esperamos que os nossos líderes não se desviem demais de um sistema econômico global orientado para o mercado. Assim fazendo, arriscar-se-ia a danificar um sistema que nos serviu bem durante 30 anos.

Os autores são professores de economia na Universidade de Chicago e fellow seniors na Hoover Institution. Gary Becker recebeu o prêmio de Nobel de 1992 em economia e Kevin Murphy recebeu a Clark Medal em 1997. Para entrar no debate entrem em www.ft.com/capitalismblog

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