Não é o que não pode ser

Vou usar a frase dos Titãs para contar uma passagem que tive recentemente com o governador José Roberto Arruda. Neste ano Brasília faz 50 anos de fundação. É um fato que não posso nunca esquecer, pois tenho a mesma idade da capital. Um belo dia do mês de agosto um amigo de Brasília me procurou. Estava, a pedido do governador Arruda, organizando um grande almoço para tratar das comemorações em 2010. Ele fez o mesmo não apenas com a DPZ, mas com outras agências e empresas de grande porte, multinacionais, principalmente levando em conta o lado estratégico local, de empresas com filiais em Brasília ou de o governador ter intenção de atrair investimentos.

A recomendação era a de que levássemos ideias, projetos, tudo o que pudesse ser desenvolvido em torno da data. No meu caso, do ponto de vista da comunicação e da propaganda. Achei aquilo uma espécie de desafio. Pedi ajuda a meu amigo Kito Mansano, da Rock Comunicação, que entende muito de eventos. Sentamos e bolamos várias coisas bacanas para tornar a festa de Brasília ainda melhor e representativa, com várias interfaces com a iniciativa privada.

No dia do encontro, aos poucos as pessoas chegavam à residência oficial do governador, nas proximidades de Brasília. Um lugar deslumbrante, com lagos, peixes, plantas, flores, salas amplas, arejadas. Fui um dos primeiros a chegar e ele a todos recepcionava numa sala, sentado, até porque tinha machucado o pé numa corrida e andava apoiado por uma bengala. Uma pessoa afável, carismática, envolvente.

Eu não o conhecia pessoalmente. Dele tinha apenas a lembrança dos tempos em que ele e o senador ACM, popularmente chamado de Toninho Malvadeza, que Deus o tenha, deram uma de pianistas. Era a imagem de um homem supostamente arrependido dos seus atos, deixando o Congresso aos prantos. Também ando muito em Brasília e vejo que a Capital está muito bem cuidada. Pensava com meus botões, sempre confidentes: “Naquele tempo ele chorou, deve ter sofrido muito e deve ter-se arrependido. Absolvido está claro que foi, tanto que está ali, sentado como governador.”

Era um homem de bem com a vida. Elegante dentro de um terno bem cortado, vaidoso, comedido nos gestos e palavras. Pai recente, de um segundo casamento com uma mulher bem mais jovem, bonita, Arruda era o protótipo de que é possível mudar o rumo de histórias e biografias fadadas ao sucesso, mas interrompidas por, digamos, maus passos ao longo do caminho.

As pessoas chegavam e trocavam cartões. Era gente importante, titulares ou representantes de grandes associações empresariais, multinacionais, agências de propaganda e empresas de capital nacional. O trabalho de reunir um time de peso foi cumprido. Fomos para uma sala enorme com mesa em “U”. Arruda, ao lado do vice Paulo Octávio, fez discurso e um por um pediu que comentasse o que achava e falasse de suas propostas. Tinha de tudo. As pessoas que não tinham levado nada, diante da convocação, ali na hora, acabavam se comprometendo em ajudar, em participar de alguma forma do projeto. Eu levei a lição de casa e entreguei. Todos gostaram das ideias. O vice Paulo Octávio, encarregado oficial das comemorações, era o responsável por montar um cronograma, acertar as parcerias, dizer como seriam feitas, etc. Ficou muito empolgado. Todo mundo ganhou uma lapela com o logo dos 50 anos, que prontamente foi fixado no paletó. Deixamos o local com muito boa impressão, os comentários eram extremamente positivos.

Depois disso, ninguém mais tocou no assunto. Em setembro até procurei os interlocutores para saber do andamento das coisas. Nada, silêncio. Hoje olho para a situação e imagino a confusão que deveria haver nos bastidores. Àquela altura já deveriam estar pipocando suspeitas, indícios de investigação, tentativas de se abortar um processo que o próprio Arruda sabia bem onde daria, por experiência passada. Isso talvez explique os muitos telefonemas que ele atendeu pouco antes do almoço, num aparelho desses meio antigos, cheios de teclas.

Todos ali empenhados, envolvidos, sem saber que falávamos com uma dupla que já tinha praticamente caído, perdido o poder. Hoje, daquela enorme mesa, com mais de 60 pessoas, sem contar assistentes e secretárias, certamente ficou apenas a sensação de tempo perdido, em todos os sentidos. Os organizadores fogem do tema e do próprio poder, ao qual eram tão próximos, como o diabo foge da cruz.

Naquele dia, ao chegar em casa, comentei com minha mulher da boa impressão que Arruda havia passado. Tinha realmente ficado entusiasmado. Aliás, em meus contatos com políticos, mesmo aqueles com os quais não tenho pessoalmente nenhuma afinidade como eleitor, não raras vezes saio com uma excelente imagem. Isso justifica talvez a montanha de votos que recebem. Na maioria dos casos são pessoas de fato vocacionadas ao fazer o que fazem, no bom e mau sentido. Com discurso fácil, são envolventes, inteligentes, tocam qualquer assunto, se mostram amáveis, gentis, atenciosos.

Esse é o meu receio, até pela proximidade das eleições. Se eu, que modestamente me acho safo, que vivi 22 anos em redação de jornais até 2004, que falei e falo diariamente com essa gente, que leio de tudo e que me considero relativamente experiente para captar certas coisas, ainda me deixo levar, imagine a grande massa que mal tem tempo de se informar, que recebe ajudas assistencialistas, presentinhos e promessas? Por isso a frase dos Titãs: não é o que não pode ser. Identificar o sentido da frase e votar certo, em busca de um país mais justo, que tenha menos corruptos, que cobre menos impostos e que devolva cada real em benefício da sociedade deveria ser a meta de todos em 3 de outubro.

Torço muito para que a maioria, na hora de apertar os botões da urna, tenha tudo isso em mente, saiba da responsabilidade enorme que um gesto aparentemente simples pode representar.

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