Não estamos descolados, mas…

“Não estamos descolados, mas estamos melhor do que muitos emergentes”.

Nossa opinião é de que neste grupo, o Brasil deverá ser o País menos impactado pela crise, dada a sua política econômica mais consistente. Isto inclusive, explica o retorno dos investidores externos. Além disso, o saldo cambial nas duas primeiras semanas de fevereiro fechou a US$ 1 bilhão, ainda pouco, mas muito melhor dos que nas semanas anteriores. Por outro lado, é preciso ressaltar sobre a necessidade de se manter um mix de políticas econômicas consistentes e bem aceitas pela comunidade financeira internacional.

Esta assertiva acima se torna ainda mais verdadeira quando observamos uma pesquisa recente da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) colocando o Brasil como o melhor dos BRICs (em ordem, Brasil, Rússia, Índia e China).

Na classificação dos indicadores sobre as “Perspectivas da Economia Global”, no índice dos países da OCDE (sem contar os BRICs), o resultado acabou como o pior desde os anos 70, recuando 1,1 ponto em dezembro de 2008 e fechando em 92,9 pontos.

Entre os países do G7, as maiores perdas ocorreram na Alemanha (1,6 ponto, para 90,9), nos Estados Unidos e no Japão, ambos com queda de 1,4 ponto. Os países do G7 como um todo registraram queda de 1,2 ponto, para 92,4 pontos. Na Zona do Euro a queda foi de 0,9 pontos e no grupo dos asiáticos, que compõem o G5 (China, a Índia, Indonésia, Japão e Coreia), recuou-se 1,7, para 90,9 pontos.

Dentre os BRICs, o Brasil ficou com 98,8 pontos em dezembro, o que representa uma queda de 1,8 ponto contra novembro; a Rússia registrou queda de 3,8 pontos em seu índice, a 86,7; a China registrou queda de 2,4 pontos, a 87,6; e a Índia caiu 0,5 ponto, a 94,4. Em janeiro passado, a produção industrial da Rússia despencou 16% contra o mesmo mês do ano passado e 19,9% contra dezembro, enquanto que o Brasil mostrou alguma recuperação depois do tombo de dezembro. Neste mês citado, a queda da produção nacional se mostrou a mais aguda pela secagem do crédito desde setembro, despencando 14,5%.

Estes indicadores da OCDE mostram, portanto, que o Brasil e os outros emergentes devem sentir o tranco desta que já é considerada a maior recessão global dos anos 30. Acreditamos, por outro lado, que seremos capazes de sairmos mais fortalecidos da crise. Nas projeções das instituições multilaterais, inclusive, os emergentes deverão sustentar o desempenho da economia mundial em 2009, com o crescimento global de 2%. Nós, os emergentes, cresceremos 3% e os países industrializados devem mergulhar 2%. O Brasil deve crescer algo em torno de 1% a 2%, a China, cerca de 6%, mesma projeção da Índia, mas a Rússia deve mergulhar numa recessão, ofuscando um pouco o desempenho dos BRICs. Suas previsões indicam uma retração entre 0,2% e 0,8% neste ano de 2009.

No Brasil, a sustentar este desempenho “menos ruim”, destaque para a política consistente empregada pelo governo Lula, no seu arcabouço geral, uma herança do governo anterior.

Sim, porque o tripé câmbio flutuante, sistema de metas de inflação e Lei de Responsabilidade Fiscal, resiste de teimoso dadas as várias escorregadas e tentações em contrário nos vários segmentos do governo atual e dos partidos de esquerda mais açodados. Sendo assim, passado o fatídico ano de 2008, na sua fase mais delicada a partir da não intervenção no Lehman Brothers (quem disse que banco grande não quebra?), façamos uma breve análise das políticas econômicas atuais nesta fase crucial do governo Lula.

  • O Bacen segue como um grande alicerce da política econômica “lulista”, no estreito equilíbrio entre manter a inflação sob controle e observar “com lupa” o desempenho da atividade econômica. Sobre isto, no balizamento da taxa de juros, poucos duvidam que um corte de juro, muito provavelmente, de 1 ponto percentual, deverá ser sancionado em março, na reunião do Copom. Ao fim deste ano, estamos prevendo uma taxa de juros fechando em 10,25%, com o câmbio balizando em torno de R$ 2,30. Sobre isto, sem dúvida, o que houve no quarto trimestre de 2008 foi uma brutal maxidesvalorização, com o dólar pulando de R$ 1,60 para cerca de R$ 2,40, ou seja, um “tiro de 50%”. O que nos consola, no entanto, é que com a demanda enfraquecida e a produção despencando, o risco de repasse inflacionário acaba amenizado. Mesmo assim, a política de intervenções do Bacen acabou se mostrando acertada, com poucas intervenções pontuais da moeda estrangeira, visando deixar o câmbio “deslizando”, em função da forte crise de liquidez internacional.
  • Na política monetária, o objetivo do Bacen foi evitar a “secagem” das linhas de crédito para a produção e as exportações, uma tarefa impossível dada a “agudização” da crise no quarto trimestre do ano. A produção industrial em dezembro acabou desabando, liderada pelos segmentos mais sensíveis ao crédito (bens duráveis), assim como a balança comercial de janeiro fechou deficitária. Por outro lado, foi bem sucedida a política de injeção de liquidez nos bancos, como a permissão da compra de carteiras dos bancos menores, visando manter o sistema sólido. Com a recessão rondando, as expectativas indicam neste ano de 2009 que o Bacen terá que manter uma política mais agressiva de cortes de juro nos próximos meses.
  • É no front fiscal que encontramos os maiores problemas, dada a tibieza do governo em realizar uma política anti-cíclica mais firme. Em vez disto, criou o Fundo Soberano, no total de R$ 12,4 bilhões, com recursos dos bons resultados fiscais anteriores. Ou seja, não conseguimos formar um “colchão de excedentes fiscais”, fruto dos bons resultados do passado. Esta prudência na questão fiscal, no entanto, não nos afasta de elogiar o que deve ser destacado positivamente. Neste sentido, é digno de elogios o corte de IPI para estimular a indústria automobilística. Esta, depois de despencar em dezembro, já mostrou recuperação em janeiro e na primeira quinzena de fevereiro deste ano, com as vendas de automóveis avançando. Como este é um setor com forte efeito multiplicador sobre a economia como um todo, pelos vários setores vinculados (borracha, vidro, aço, etc), é possível que a indústria nacional já mostre um desempenho melhor nestes primeiros dois meses de 2009. Sendo assim, é fato que o governo precisa ser mais agressivo na política de corte de impostos para estimular a produção, tentando segurar suas despesas de custeio, em perigosa trajetória de alta e estimular os investimentos, com o PAC. É uma equação complicada, mas a folga fiscal de passado recente nos daria esta possibilidade.
  • Por fim, é neste momento de crise e mobilização que duas demandas deveriam ser apressadas. Uma, a necessidade premente de modernização do “marco regulatório”, e outra, a agilização das reformas estruturantes, como a Tributária, já no Congresso, mas engavetada, sem esquecer de tantas outras, como a da Previdência, a Trabalhista, etc. Sobre esta última, é escandalosa a urgência da flexibilização desta arcaica legislação (CLT) da época de Vargas. Mas com um Ministério do Trabalho clientelista e demagogo, isto deverá ficar para as calendas.

Concluindo, mesmo sendo um exercício complicado de previsão, dadas as incertezas do cenário global, ainda acreditamos que o Brasil está passando por uma “recessão técnica” – o quarto trimestre de 2008 e o primeiro trimestre deste ano – mas no segundo semestre é possível uma recuperação da economia, impulsionada pela demanda interna, preservada pelo reajuste do salário mínimo, pelo Bolsa-Família e pelo esforço de se manter o crédito fluindo para o consumo e a produção. Com isto, depois de crescer algo em torno de 5,2% em 2008, desaceleraremos para 2% neste ano de 2009. É ruim? Sim, não é nada bom, mas poderia ser bem pior dada a recessão global em curso.

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