Não há motivo econômico para subsidiar compra de caminhões

caminhão

Há alguns anos o BNDES emprestou recursos a juros nominais inferiores à inflação para que empresas comprassem caminhões.

As condições muito favoráveis geraram um enorme boom no setor. Montadoras passaram a trabalhar a plena capacidade: horas extras e turnos extras.

O bom desempenho da indústria incentivou grande elevação do investimento no setor. Os lucros retidos, consequência das vendas muito favoráveis, e novos empréstimos do BNDES, novamente a juros camaradas, financiaram a expansão da capacidade.

Quando a nova capacidade ficou pronta, as empresas transportadoras já tinham renovado a frota. A demanda sumira. De um período de anos operando além da plena capacidade passamos para excesso de capacidade ociosa. Sobrava caminhão e faltava carga.

O excesso de caminhões vendidos gerou excesso de oferta de serviços de fretes, e seu preço caiu. O caminhoneiro autônomo -aquele pequeno que, com muita dificuldade, adquiriu um caminhão- viu seu patrimônio se desvalorizar e a renda cair.

Como acontece com frequência no Brasil, tentou-se empurrar o prejuízo para outros. Nesse caso, aos concessionários de rodovias. O Ministério dos Transportes reduziu o pedágio -sob certas circunstâncias- pago pelos caminhoneiros.

Essa redução do pedágio gerou quebra contratual nas rodovias operadas pela iniciativa privada, e o tema foi judicializado: as concessionárias entraram com um pedido de reequilíbrio econômico financeiro do contrato.

Baita confusão!

A origem da confusão é a leitura dos economistas heterodoxos brasileiros de que subsidiar investimento é sempre bom.

Não há motivo econômico para subsidiar compra de caminhões. O mesmo aplica-se à indústria naval e outras atividades.

A atual crise econômica promoveu a maior perda de PIB per capita de nossa história. A fonte da crise é o esgotamento de um longo ciclo de investimento, todo ele nos setores errados.

O investimento gerou endividamento das empresas e, principalmente, do Estado brasileiro. E não gerou capacidade produtiva. Houve má alocação do investimento.

A segunda pior crise de nossa histórica, a crise da dívida externa dos anos 1980, tem a mesma fonte: o esgotamento de um longo ciclo de investimento incentivado pelo Estado.

De 1981 até 1984, o PIB per capita caiu 9,6%. Agora, de 2014 até 2017, cairá provavelmente 9,8%. A esquerda encontra a direita.

O Congresso Nacional discute a MP (medida provisória) 777, que substitui a TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), fortemente subsidiada, pela TLP (Taxa de Longo Prazo), pela qual a taxa de referência dos empréstimos do BNDES passará a ser o juro que o Tesouro Nacional paga nos seus títulos de cinco anos.

A MP 777 altera toda a governança de concessão de subsídio em empréstimos do BNDES. Como a taxa de referência não será mais subsidiada, o BNDES somente concederá subsídio se o Congresso Nacional assim determinar.

Tenho certeza de que os políticos no Congresso Nacional alocarão o subsídio muito melhor do que os técnicos defendendo suas ideologias capengas. Vimos essa incompetência no governo Geisel, no segundo Lula e em Dilma 1. Boas intenções e ideologias capengas têm poder destruidor.

Provavelmente Eduardo Cunha não consegue fazer pior!

O Tesouro financia o que a política determina. Os técnicos executam. A TLP devolve à política atribuição que nunca deveria ter saído dela.

Fonte: “Folha de S. Paulo”, 13/08/2017

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