No navio de Temer, mais suspense que no Henrietta

Júlio Verne poderia ter dado um pouco mais de suspense e de emoção à corrida final da Volta ao Mundo em 80 Dias se o herói Phileas Fogg tivesse um ataque de insensatez ou, pelo menos, fizesse algumas besteiras no comando do Henrietta. Mas só houve ousadia, nenhuma besteira. Ele fez queimar na fornalha do barco os mastros, pedaços de camarotes e mais um monte de madeira para ganhar velocidade até o porto de Liverpool. Reduzido quase só ao casco e ao motor, o navio chegou a tempo e foi possível cumprir o prazo da aposta. Mas a história poderia ser mais acidentada. E se Phileas Fogg, além de ter comprado a tripulação, tivesse distribuído responsabilidades de forma imprudente e assumido o risco de um naufrágio a algumas centenas de milhas da costa britânica?

O Henrietta alcançou o porto, devastado, mas com o casco inteiro, e a aventura foi um sucesso. Porém os leitores de Júlio Verne, assim como os expectadores do filme de 1956, premiado com o Oscar, tiveram menos emoções que os brasileiros de hoje, incapazes de dizer como o governo e o País chegarão a 2018, depois da complicada travessia iniciada no meio de 2016. Os 12 meses finais do prazo, se forem alcançados, poderão ser especialmente perigosos, por causa das eleições.

O prazo atribuído ao presidente Michel Temer é na prática tão curto quanto os 80 dias fixados na aposta sobre a volta ao mundo. Temer só teve poderes para de fato governar depois do afastamento definitivo da presidente Dilma Rousseff. Escolheu gente com bom currículo para cuidar do conserto das finanças públicas. Mas competência no Ministério da Fazenda e no Banco Central poderiam ser insuficientes. O tempo muito curto e o desafio complexo requeriam habilidade política, astúcia, firmeza e ousadia comparáveis, talvez, às de Phileas Fogg.

Alguma esperteza foi demonstrada, tanto nas barganhas iniciais com a base aliada quanto no encaminhamento de projetos politicamente difíceis, como o do teto de gastos e o da reforma da Previdência. Alguns analistas têm apostado nessa esperteza como garantia de sucesso até o fim do mandato. Pode ser uma aposta muito otimista.

O presidente falhou, para dizer algo suave, nas escolhas da maior parte de sua equipe. Os currículos de vários ministros eram inexpressivos. Os de outros eram preocupantes. Alguns escolhidos caíram em pouco tempo. Houve gente suspeita de envolvimento nos crimes investigados pelo pessoal da Operação Lava Jato. Um secretário afundou, de forma grotesca, depois de uma conversa inoportuna sobre um apartamento em Salvador. Pode-se discutir se essa figura pecou por falta de decoro ou por ingenuidade, mas nenhum dos dois atributos combinava com suas funções administrativas e políticas. Outros auxiliares prejudicaram o governo falando demais e na hora errada. Um dos trapalhões notabilizou-se por suas atitudes infelizes durante a crise nos presídios. Já havia cometido erros indisfarçáveis. Acabou premiado com uma indicação para o Supremo Tribunal Federal (STF).

O próprio Temer tropeçou, bisonhamente, ao classificar a matança no presídio de Manaus como um acidente trágico. Tentou-se consertar a bobagem, depois, caçando no dicionário os sentidos da palavra acidente. Um de seus auxiliares, o secretário nacional da Juventude, condenou as críticas à matança. “Tinha era que matar mais, tinha que fazer uma chacina por semana”, declarou o moço. Sua demissão foi inevitável. O escândalo impediu o presidente de ser tão tolerante quanto em outros casos.

Temer extinguiu ministérios, como o da Cultura, em nome de um programa de reorganização do governo, mas acabou recuando, depois da reação de grupos interessados. Poderia ter resistido a essa e a outras pressões, mas foi, aparentemente, incapaz de avaliar os lucros e perdas. Os lucros teriam sido certamente consideráveis se houvesse alguma demonstração de firmeza. O presidente exibiu a mesma pobreza de avaliação ao cancelar a viagem a Davos, deixando de comparecer à reunião do Fórum Econômico Mundial. A reunião, segundo um de seus auxiliares, seria esvaziada pela posse, na sexta-feira da mesma semana, do presidente Donald Trump.

O encontro de Davos foi aberto, na primeira sessão plenária, pelo presidente Xi Jinping, governante da segunda maior economia do mundo. Seus assessores deviam ter informações diferentes daquelas obtidas pelos auxiliares de Temer. A primeira-ministra Theresa May, do Reino Unido, também apareceu, acompanhada de seu ministro do Tesouro, para falar a respeito do Brexit. O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, já premiado com o Nobel da Paz, apareceu para receber mais uma distinção. Muitos outros políticos, como sempre, bateram ponto em Davos em busca de espaço político e de investimentos. Trump, ainda sem ocupar oficialmente o governo americano, mandou um dirigente da equipe de transição para defender sua imagem num fórum globalizado.

Como Phileas Fogg, Temer tem queimado mastros e pedaços importantes do navio, mas, ao contrário do inglês, tem tornado mais difícil e mais incerta a travessia. Sua última façanha foi atribuir o status de ministro ao secretário Moreira Franco, num gesto comparado à tentativa da presidente Dilma Rousseff de garantir foro especial a seu amigo Lula.

Certa ou errada, a comparação seria inevitável e Temer acabou sendo convocado para se explicar ao ministro Celso de Mello, do STF. Enquanto isso, no Senado, aliados de Temer, também na mira da Lava Jato, ocupavam a presidência e várias cadeiras da Comissão de Constituição e Justiça, encarregada de sabatinar o novo candidato a juiz do STF, o ex-ministro da Justiça Alexandre de Moraes. A menos de dois anos do fim da travessia, a queima continua, mas sem alimentar a caldeira do navio. Em matéria de suspense, Júlio Verne era um amador.

Fonte: O Estado de S.Paulo, 11/02/2017.

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