Disse Stanislaw Ponte Preta: “Isto de querer fazer as reformas do Brasil antes de reformar seus homens públicos, lembra muito a história do sujeito que alugou uma ‘garçoniere’, comprou geladeira, bar, vitrola, ar refrigerado e etc. Perfumou o ambiente, arrumou dois copos, gelo e bebidas, botou musiquinha suave em surdina…e depois foi arranjar mulher”. (*) O trecho acima tangencia, a meu ver, incorretamente, um dos debates mais complicados que existe: o da reforma do Estado. Durante anos, alguns construíram um complicado discurso de “ética na política”, sob a pretensa pregação de que seriam, eles, os pregadores, os iluminados. Difícil é, para mim, que sou bobo, entender como alguém que elogia as execuções do capitão Lamarca pode ser mais “ético” do que um brucutu da tortura oficial. A única forma possível de pensar isto é imaginar que existem “éticas e éticas”. Melhor dizendo, “outras éticas são possíveis”, o que nada nos permite dizer sobre seus impactos sobre a sociedade. Em resumo: a reforma do Estado não pode esperar pela reforma dos homens públicos. Stanislaw errou. A inflação foi debelada em 1994, sem que nossos políticos tenham sido “reformados”. Isto também não quer dizer que a garçoniere esteja cumprindo sua função. Sem querer macular a memória do grande cronista, não me parece que a casa esteja em ordem. O whiskey está quente, o ar refrigerado parece não funcionar, a geladeira foi roubada e a musiquinha suave não alcança os ouvidos dos brasileiros mais pobres. Experimente chegar com a mulher neste local: se a intenção envolve carícias seguidas de “algo mais”, a chance de (apenas) assistir televisão de madrugada é alta. Mas há algo de verdadeiro no que ele disse: todos gostaríamos de homens públicos mais honestos e produtivos. Na verdade, o cronista faz graça com a pretensão de sabedoria que cada um de nós pensa possuir. Qual a solução para o problema da Previdência? Falta caráter aos homens públicos. Qual a solução para a ineficiência burocrática? Mais moralidade para o funcionário público. E a Educação? Ensine-se “responsabilidade social” ao professor. E por aí vai. Funcionam? Não. O ponto importante é que até pessoas geniais como Stanislaw Ponte Preta se esquecem que políticos são indivíduos e que apenas com os incentivos certos você pode levá-las a cumprir determinadas tarefas. Exemplo simples: o sinal de trânsito. Está verde? Ande. Vermelho? Pare. Tanto o brasileiro residente na Bahia e frequentador do Candomblé como o seu companheiro paulista católico entendem esta mensagem. É muito mais difícil reformar um homem público do que os incentivos aos quais o submetemos para que cumpra o que desejamos. Mas há uma esperança: o pessoal entende o sinal de trânsito. Não é que seja impossível que homens públicos voluntariamente “não se reformem”. É só que é mais difícil que a alternativa. E qual a alternativa? Em outras palavras: que incentivos adotar? Para um liberal, esta é uma pergunta crucial para o desenvolvimento sócio-econômico. Não há uma resposta fácil. Para mim, a pista está com outro famoso pensador, Dahrendorf. Citei Stanislaw no início e encerro com o famoso sociólogo: “A democracia refere-se à busca de progresso num mundo de incertezas. Sua constituição deve tornar possíveis as mudanças, mas retirá-la dos atos arbitrários de poucos. Isto significa que ela deve criar condições não tanto para a iniciativa como para o controle, e ambos devem ser relacionar com os direitos e os interesses dos cidadãos”.(**) Agora leitor, pense um pouco: um ditador com forte senso “ético” poderia resolver o problema de Stanislaw, mas não necessariamente o de Dahrendorf. Um liberal sabe que a sociedade está cheia de gente imperfeita e, assim, talvez seja melhor apenas rir das piadas de Stanislaw. Pensando bem, ele nunca quis ser levado a sério mesmo e eu sou apenas um economista mal-humorado…

(*) Pasquim. Máximas inéditas de tia zulmira. Rio de Janeiro, Ed. Codecri, 1976, p.32 (**) Dahrendorf, R. A lei e a ordem. Rio de Janeiro, Instituto Liberal, 1997, p.113

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