No Natal, o retorno de Babel

A conferência de Copenhague, na Suécia de alguns sonhos, prova que não somos totalmente racionais ou utilitários.

Se fôssemos, teria havido entendimento, pois sem planeta não há Estados Unidos, lucro, sistemas ou natais felizes. Tristes, vimos um circo de discórdias e hipocrisias. Houve desarmonia até na delegação pátria, salva pelo proverbial populismo de um Lula revelado ecologista de primeira hora, pronto a prometer o que logo será esquecido. Abatido, reli o ensaio de Freud sobre a guerra. Ele me fez compreender que o “civilizado” tem seus hóspedes não convidados: a força bruta, a inveja, o ressentimento e o fato, difícil de aceitar, que nossas vidas pessoais e coletivas não são dirigidas somente por projetos intelectuais conscientes. É preciso ir além das etiquetas globais para encontrar o lado submerso da montanha de orgulho e egoísmo que igualmente nos sustenta.

Em toda a Terra, havia somente uma língua, e empregavam-se as mesmas palavras. (…) Utilizaram o tijolo em vez da pedra, e o betume serviulhes de argamassa. Depois disseram: “Vamos construir uma cidade e uma torre, cujo cimo atinja os céus. Assim, havemos de tornar-nos famosos para evitar que nos dispersemos por toda a superfície da Terra.” O SENHOR, porém, desceu, a fim de ver a cidade e a torre que os homens estavam a edificar. E o SENHOR disse: “Eles constituem apenas um povo e falam uma única língua. Se principiaram desta maneira, coisa nenhuma os impedirá, de futuro, de realizarem todos os seus projetos. Vamos, pois, descer e confundir de tal modo a linguagem deles que não consigam compreenderse uns aos outros.” E o SENHOR dispersouos dali por toda a superfície da Terra, e suspenderam a construção da cidade. Por isso, lhe foi dado o nome de Babel, visto ter sido lá que o SENHOR confundiu a linguagem de todos os habitantes da Terra, e foi também dali que o SENHOR os dispersou por toda a Terra.

A Babel bíblica que retorna nesta pífia reunião clímax, sobre o clima em Copenhague, é exemplar. Acompanhei a reunião porque, como antropólogo que estudou a noção de “panema” ou de má sorte na Amazônia brasileira, testemunhei a possibilidade de viver com a natureza. Com esse “ambiente” que impõe limites e, supunha-se, estava sempre contra nós.

Morando com populações “pobres” e “primitivas” aprendi haver um laço de parentesco com o meio ambiente. Um caçador ou pescador ficava “empanemado” se abusasse de uma espécie, caçando-a além do necessário para seu consumo. O mesmo ocorreria se sujasse um ribeirão ou não controlasse o percurso da carne e do peixe dentro de sua comunidade. Caso fossem vendidos ou consumidos por pessoas ambíguas (mulheres grávidas, menstruadas e invejosos) o caçador ou pescador ficaria azarado: erraria sua pontaria ou perderia seu peixe nas próximas tentativas de transformar os seres vivos que com ele compartilham águas e matas em alimento. A fonte desse equilíbrio não é, como vimos na Suécia, discursos demagógicos, afirmação de poder ou séries estatísticas reveladoras da diminuição de florestas ou geleiras.

Não! É mais primordial e surpreendente.

Trata-se da reação da “mãe” desta ou daquela espécie animal ou curso d’água que, numa relação pessoal com o predador, vinga-se dele, fazendo com que fique “azarado”.

Faltou em Copenhague a concepção de uma natureza dotada de personalidade.

Fossem os seus líderes “caboclos” ou “índios”, Babel não retornaria porque haveria consciência dos efeitos devastadores da violenta ruptura promovida pelo humanismo individualista do ocidente, o qual, em nome do poder e da produção, suprimiu a ideia de limite. A noção de que a humanidade também faz parte — como dizia Lévi-Strauss — da natureza e do planeta.

Como mudar essa relação exclusivamente predatória com a natureza como, aliás, temos lutado para fazer com os loucos, as mulheres, os excluídos, os diferentes e parcelas de nós mesmos? Como aprender com o “selvagem” — o outro absoluto a ser civilizado ou destruído — que não há povo ou ser vivo eleito? Dizem que o Homem foi criado por último para não se sentir orgulhoso.

Mas o entendimento corrente é que, sendo o último, ele tudo coroava. Daí a passagem de vítima a algoz do ambiente.

Não se pode mais imaginar, como ocorreu no início da era industrial, que os recursos naturais são ilimitados.

Modernizado e lendo a si mesmo como um indivíduo-cidadão, o macaco nu amalucado por ideologia, ciência, mercado, álcool, arte, literatura ou religião criou um modo de produção aniquilador da “natureza”.

Hoje, um planeta enfermo dá sinais daquilo que os “selvagens” conhecem: que não somos senhores privilegiados deste mundo, mas um mero ator entre outros. Se o nosso individualismo coletivo — pomposamente chamado de nacionalismo e de patriotismo — nos faz recalcar o limite; o retorno das diferenças nos diz que temos que aprender a falar uma mesma língua. Não por ideologia ou religião — esses grandes motivadores de tenebrosas transformações sociais — mas porque estamos suicidando o planeta.

Que o querido leitor tenha um Natal festivo pensando no que tem e não no que falta.

RELACIONADOS

Deixe um comentário