O nome do vilão

Gostaríamos de avivar a memória dos cientistas políticos recordando certo expediente vitorioso nas relações de trabalho, ao início do século 20, que contribui em parte para elucidar o descalabro atual.

Ao redor do ano de 1900, certos grupos de sindicalistas franceses criaram nova estratégia para alcançar mais rapidamente seus objetivos. Deram-lhe o expressivo nome de ação direta. Cansados de esperar em vão pelo atendimento das reivindicações dos trabalhadores, os mais impacientes resolveram forçar a situação, desafiando os trâmites tradicionalmente impostos à sua vontade, como as leis, as instituições, os regulamentos e as normas consagradas de procedimento, visando exclusivamente os resultados práticos de suas ações, sem cerimônia, sem consulta nem mediação, mas às brutas.

Normas, trâmites, diálogo, respeito às partes contrárias e às instituições, tudo isso cai por terra. O contraditório na luta de classes desaparece, liberando a pressão reprimida da ação direta, que irrompe de forma devastadora, como uma força da natureza. Adeus à solução negociada, fora a diplomacia no trato com a parte contrária neutralizando o atrito e ensejando a convivência, a comunidade, a civilização.

No curso do século 20, a ação direta alastra-se para fora, atravessando as fronteiras do trabalho para contaminar todos os setores da sociedade, a política, a economia, o direito, a ética, usos e costumes, a educação e a cultura. A ação direta impõe-se, prepotente, como norma oficial, em toda a extensão da vida pública e privada, insinuando-se no DNA das sucessivas gerações.

Em meio a tanta pujança, o mundo anda fora dos eixos, cambaleando perigosamente a cada passo

Adeus cortesia, vontade de convivência, disposição de contar com os demais, tudo o que define a civilização. Tudo se dissolve no liquidificador gigante da ação direta. Sim, ação direta, esse é o nome do vilão. Em sua prepotência, ela conspira contra a ordem pública, a paz social, a ética e os demais códigos de convivência, inclusive na vida familiar e privada, e ainda contra a ecologia, a sustentabilidade no trato com a natureza e a estabilidade do corpo social e de suas instituições.

O presidente Lula, originário do sindicalismo, é o campeão dos atentados anti-institucionais. Anulou o Poder Executivo e o Poder Legislativo com a pressão das medidas provisórias e da cooptação em massa. Só poupou o Judiciário, que lhe fez frente. Mas, atenção, sem preconceito nem maniqueísmo. Lula e Dilma foram os instrumentos dóceis de um estado de coisas preexistente.

Ao conceber um projeto de poder em lugar de um projeto de país, Lula encarnou com maestria o espírito da ação direta, entronizando o pragmatismo como a maior virtude do político. Ora, o pragmatismo, como filosofia do sucesso transitório, tem pernas curtas. A maior virtude do líder político não é governar com pragmatismo e sim construir um sistema duradouro da ordem pública, que responda mais às próximas gerações do que às próximas eleições.

O papel do líder, mais do que governar corretamente, é criar novas oportunidades para todos, reforçando a parceria entre sociedade e governo. A exemplo do que ensinava o poeta Schiller, lembrado por Ortega: Quando os reis constroem, têm que fazer os carpinteiros.

Fonte: Folha de São Paulo, 18/03/2014

RELACIONADOS

Deixe um comentário