“Curva a cabeça, sicambro! Adora o que queimaste e queima o que adoraste.” Segundo uma narrativa medieval, essas palavras de Remigius, bispo de Reims, assinalaram a conversão de Clóvis ao catolicismo, em 498, e a fundação mítica da França. O rei dos francos abjurou suas convicções pagãs em nome da unidade dos seus súditos e da vitória na guerra. Ele se converteu, não se vendeu.

Na sua posse como ministro, amanhã, Roberto Mangabeira Unger queimará o que escreveu em 2005, quando, numa versão de qualidade inferior do J’Accuse, de Émile Zola, classificou o governo Lula como “o mais corrupto” da história do País e clamou pelo impeachment do presidente. O intelectual de Harvard começou a se converter à adoração de Lula seis meses depois de publicar seu libelo e, agora, completa o ato de contrição, ofertando desculpas ao homem que lhe concede um cargo. O evento consagrará uma operação comercial plena de sentido político.

Uma transação se articula em torno de dois pólos: o vendedor e o comprador. No caso das convicções do novo ministro, os analistas investigaram as motivações do primeiro pólo, mas pouco se interessaram pelas do segundo. Mangabeira Unger colecionou fracassos tentando se tornar o Rasputin de Leonel Brizola e de Ciro Gomes. A sua busca incessante de um tribuno da plebe o conduziu ao paroxismo de vestir-se com o manto de candidato presidencial pelo partido de uma seita cristã. Ao abjurar suas convicções falsificadas para aderir ao salvador da Pátria que detém o poder, ele é fiel a si próprio e, sem o saber, conclui uma trajetória rumo à irrelevância política.

O arremedo de Zola tupiniquim é descartável, mas o líder que compra suas propaladas convicções não é. Lula não convidou Mangabeira Unger para o círculo ministerial por não ter lido o que este escreveu, mas precisamente por ter lido. Agindo com requintada crueldade, o presidente inventou, especialmente para abrigar o intelectual, uma Secretaria de Ações de Longo Prazo, que é uma piada literal já alcunhada de Sealopra. Trata-se de humilhar e extrair uma vingança pessoal. Mas a operação não se circunscreve à mesquinharia de varejo e serve a um objetivo presidencial estratégico: dissolver a ética da convicção no ácido da galhofa pública.

Na pólis grega, a ágora cumpria as funções paralelas de praça do mercado e de fórum político – o lugar do intercâmbio de mercadorias e de idéias. A metáfora do mercado se aplica à política democrática, na qual o eleitor desempenha o papel de comprador de convicções. A condição para o funcionamento do sistema é que a mercadoria – isto é, a convicção – seja genuína. Quando se difunde a percepção de que no mercado político só se vendem produtos falsificados, os cidadãos abandonam o fórum. Eis a meta do presidente, que compra o que está à venda.

Desde a inauguração de seu primeiro mandato, Lula empenha-se em desmoralizar a ética da convicção, a começar pelas suas próprias supostas convicções dos tempos de oposição, agora convertidas em “bravatas”. Os sucessivos congraçamentos com José Sarney, Paulo Maluf, Jader Barbalho e Fernando Collor decorreram muito menos de alegadas necessidades pragmáticas que da vontade deliberada de explodir as pontes que conduzem os cidadãos ao fórum político da ágora. A cooptação de Mangabeira Unger se inscreve como marco nessa escalada, pois, ao contrário dos deputados mensaleiros, o intelectual de Harvard aliena o patrimônio da convicção política presumida como verdadeira.

No fórum da ágora, os governantes prezam a convicção divergente, que ajuda a configurar o debate público e confere legitimidade democrática ao programa da maioria. O governo Lula teme a divergência de idéias, que invariavelmente enxerga como um complô. O presidente e seus ministros hostilizam a imprensa e, diante da crítica, tendem a preferir a via dos tribunais à da polêmica política. Mas estão sempre prontos a pagar a abjuração com um ducado ou um mero lote vazio nos amplos domínios da máquina pública. Nunca o oportunismo e a aversão aos princípios foram tão generosamente recompensados.

Há muito da personalidade de Lula nessa estratégia. O presidente, que declara orgulho pela própria incultura e evidencia deslumbramento com o sucesso pessoal, confunde o interesse público com a sua conveniência privada. Mas a esperteza presidencial semeia o solo fértil da crise do sistema político brasileiro. Há uma semana, sob o argumento majoritário de que os eleitores absolveram os parlamentares, a Comissão de Ética da Câmara se negou a reabrir processo contra deputados reeleitos que, temendo a cassação, renunciaram a seus mandatos no curso do escândalo do mensalão. A falácia política e jurídica que garante a impunidade foi sustentada pelo deputado José Eduardo Martins Cardozo, antigo expoente da ala “ética” do PT, que se distingue da ex-colega Angela Guadagnin pela sabedoria de protagonizar uma nova “dança do mensalão”, apenas depois da reeleição.

Enquanto o intelectual de Harvard ilustrava voluntariamente a tese lulista de que tudo está à venda e o santarrão “ético” rasgava sua fantasia, Tasso Jereissati demonstrava que o comércio de convicções não está restrito ao governismo. Ao subir a rampa do Palácio para prostrar-se diante de Lula num encontro de pauta sigilosa, o presidente do maior partido de oposição aderia à galhofa patrocinada pelo Planalto. O ato veicula uma mensagem: Jereissati está dizendo aos eleitores que, diante de interesses inconfessáveis e articulações secretas, suas palavras solenes de ontem valem tanto quanto as de Mangabeira Unger.

Os cidadãos da pólis grega se consideravam privilegiados por participar da vida política e cunharam o termo idiotis (idiota) para identificar aqueles que evitavam o fórum da ágora. O lulismo persegue tenazmente a meta de esvaziar o fórum, reduzindo a ágora à praça do mercado e convertendo todos os cidadãos em idiotas. Ao que parece, os chefes oficiais da oposição não têm objeções.


Por Demétrio Magnoli, sociólogo, é doutor em geografia humana pela USP.

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