Nossa encruzilhada

Para além da novela interminável do petrolão, sugiro aos que estão no limite de sua paciência acompanhar a minissérie do Eike Batista contra a Justiça brasileira, que pode ter um desfecho mais curto e ilustrativo de como pode terminar a primeira. Pego com a mão na botija transferindo bens para familiares na intenção de ludibriar eventuais credores, o até pouco tempo considerado ícone da prosperidade nacional e a maior encarnação do espírito empreendedor nacional — e hoje acusado de manipulação do mercado de ações, informação privilegiada e outros crimes correlatos — dá bem a dimensão do desprezo às instituições, do desrespeito a contratos e valores morais, da promiscuidade, enfim, com que nossas elites concebem as relações entre o poder público e privado. E pensar quantas vezes não li aqui mesmo nestas páginas matérias e artigos celebrando esta figura nefasta como exemplo de empresário e filantropo, mesmo que às custas de facilidades governamentais, empréstimos subsidiados pelo Tesouro e demais traficâncias.

Pelo lado da Justiça, que não poderia incorrer nos mesmos erros, o juiz é pego com a mão no volante de um dos carrões arrestados do empresário, numa clara demonstração de que a cultura de transgressão é mesmo enraizada em toda a sociedade brasileira.

O juiz é pego com a mão no volante de um dos carrões arrestados do empresário, numa clara demonstração de que a cultura de transgressão é mesmo enraizada em toda a sociedade brasileira

Numa outra vertente, tenho identificado um emergente jornalismo cívico, que surge exatamente para compensar o denuncismo do dito jornalismo investigativo da cobertura política, e que tem frequentado com galhardia todas as demais editorias como as de economia, sociedade e comportamento. Um jornalismo mais responsável que, para além de denúncias de omissão ou desvios de conduta dos agentes públicos, se engaja também na mobilização do cidadão comum e na convocação de sua responsabilidade cívica. Como no caso da cobertura da crise hídrica, em que o cidadão comum aparece como o maior protagonista de verdadeiras campanhas de racionalização do uso da água, de monitoramento da ação das autoridades e da vigilância contra o desperdício daqueles ainda deficientes de espírito público.

Aliás, no caso específico do espírito empreendedor brasileiro, é de se destacar a cobertura especial que o portal do “Diário do Comércio”, da Associação Comercial de São Paulo, está fazendo sobre o empreendedorismo nas favelas paulistanas. Intitulado “Negócios da quebrada”, a cobertura faz um painel completo de quem são e como trabalham os empreendedores das comunidades da periferia de São Paulo, entre comerciantes, prestadores de serviço e até mesmo pequenos fabricantes. Se dos 40 milhões de habitantes de São Paulo, 3,8 milhões moram em comunidades — ou “quebradas” — e, deste total, 50% têm carteira assinada, 25% dependem de assistência social do governo e 25% são empreendedores.

E esta é a nossa encruzilhada cultural: ou empreendemos a força de nossa cidadania para superar a cultura de impunidade reinante ou permaneceremos atolados no mesmo cinismo político de nossos governantes.

Fonte: O Globo, 28/2/2015

RELACIONADOS

Deixe um comentário