Quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
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Nossa primeira crise “multimídia”

Uma das grandes novidades da presente crise econômica que se instala no Brasil (e não há outra classificação para um resultado de PIB inferior a -3%), além do fato de sua geração estar baseada principalmente no descontrole de gestão do setor público, é o fato dela ser o primeiro fenômeno econômico baseado em expectativas que encontra o Brasil em plena era multimídia, com avançados índices de inserção digital.

O Brasil que a atual crise econômica encontra é um Brasil que aprendeu a ser “viral”

Onde está então a ligação comportamental entre um país que entra na era de comunicação digital e segmentada, e uma crise na economia? Está no fato de que, agora, a informação flui através de diversas mídias, e em uma velocidade sem ímpar na história. Na crise econômica da década de 1980 os meios de comunicação eram principalmente a comunicação de massa, com a TV aberta, jornais e revistas impressos, e rádio. A popularização da comunicação, com exceção da TV, era bem mais restrita, principalmente à classes média e alta, e aos grandes centros urbanos. Havia, ainda, durante os primeiros anos da década de 1980, uma certa influência da censura federal e um índice muito maior de analfabetismo.

Pois bem, o Brasil que a atual crise econômica encontra é um Brasil que aprendeu a ser “viral”, segmentado, mas também mais descartável no uso e análise de informações. Pegando uma carona no trabalho do ganhador do Prêmio Nobel de Economia deste ano, Angus Deaton, que pesquisou a forma como o comportamento humano influencia as decisões econômicas além da lógica cartesiana dos modelos teóricos, a reação dos brasileiros diante do prenúncio e desenrolar de uma crise econômica será fortemente influenciada por essa rede viral de informações, comentários, e compartilhamento de expectativas através de redes sociais e canais segmentados. Ao contrário da crise de 1980, o papel da mídia de massa é muito mais de consolidação do que de formação da opinião.

Algumas especulações podem ser feitas: será o comportamento dos agentes econômicos muito mais segmentados, ou seja, diferentes de acordo com situação econômica, geografia e atividade? Boatos e especulações que correm mais rápido poderão influenciar o comportamento de um número maior de brasileiros, nas diferentes regiões? Até que ponto o comportamento de expectativas não acaba sendo acelerado, pela maior fruição da informação?

De uma certeza, todos compartilhamos: que essa crise também traga avanços, e aprendizados. Para isso, é preciso que imprensa, academia e formadores de opinião estejam muito atentos. E que o processo seja o menos longo e doloroso quanto possível.

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