Notas rápidas sobre o 15 de março

1 – As manifestações mostraram que temos uma democracia pujante, muita diversidade política e o desejo de segmentos importantes de influenciar os rumos políticos do governo. Os manifestantes estão insatisfeitos com o governo e querem que ele mude ou saia;

2 – A ideia de que as manifestações são golpismo ou terceiro turno padece de realidade, as pessoas se mostraram cansadas de corrupção, desconfiadas do governo e de instituições como os partidos e o Congresso, mas, a não ser por grupos minoritários e sem apoio da maioria – que pregavam a volta dos militares – querem a democracia, querem se ver integrados na nação (não é isso que sugere a presença das bandeiras e o hino tantas vezes cantado?) e querem participar mais da vida política do seu país; nada disso contraria a democracia ou é golpismo;

A ideia de que foi um evento apenas dos ricos, coxinhas e coisas como tais não encontra apoio na realidade

3 – Quem não entendeu nada – e tudo indica que está dividido internamente sobre isso – é o governo: Cardozo, na entrevista coletiva, propôs o diálogo com quem apoia e não apoia o governo, mas Rosseto – que coisa estranha e autista! – só viu eleitores anti-Dilma na manifestação e, em contradição com o anunciado desejo de Dilma de governar para todos os brasileiros – discriminou e desqualificou os manifestantes críticos, como se eles não fizessem parte do país e não tivessem o direito de participar e, mais do que isso, serem objeto de atenção do governo;

4 – O dia 15 ainda revelou uma coisa mais importante: o PT e o governo Dilma dizem, sempre que podem que querem construir um projeto hegemônico no país, a favor da justiça e da igualdade social, mas são incapazes de perceber que hegemonia é algo que supõe incluir os que pensam diferente (apud Gramsci), e que a persuasão é uma missão necessária de quem quer governar para todos; ou seja, os atos contradizem a retórica, e o governo não se dá conta de que as pessoas percebem isso;

5 – Finalmente algo sobre o tema da corrupção! Muita gente inteligente ainda não se deu conta de que na conjuntura atual a política enquanto tal está sendo mais importante que a economia em toda a sua materialidade. As pessoas pedem o fim da corrupção, um governo mais ético e comprometido com suas promessas porque querem intervir, entre outras coisas, na economia, mas para isso, precisam conquistar o direito de protestar, de participar e de obrigar o governo a fazer aquilo para o qual ele existe. Ou seja, o combate ä corrupção, foco central das manifestações desde 2013, é um modo de buscar influencia sobre os rumos da economia; ou alguém esquece que corrupção retira recursos das políticas públicas?

6 – O governo que nem completou ainda 3 meses de mandato, está perdendo a cada dia que passa a legitimidade adquiridas nas eleições, mas ainda não é passível de impeachment. Nada impede, entretanto, que venha a ser – mesmo porque ainda há muitas coisas que Dilma e o PT precisam explicar para o país sobre o que aconteceu na Petrobrás, inclusive a responsabilidade da presidente quando era do Conselho de Administração da empresa, sem falar do repasse de dinheiro para o PT e partidos da base aliada; o governo pensa que o país esqueceu isso?

7 – Por último, ontem, na manifestação eu vi gente da classe média branca, muitas famílias com crianças, jovens e velhos da periferia, muitos trabalhadores e funcionários do terceiro setor, brancos, mulatos e negros. A ideia de que foi um evento apenas dos ricos, coxinhas e coisas como tais não encontra apoio na realidade; mas a indignação com o governo era geral, principalmente, porque muita gente acha que Dilma e o PT mentem para o país.

Fonte: Qualidade da Democracia, 15/03/2015.

RELACIONADOS

Deixe um comentário