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Faltam poucos meses para as eleições argentinas. Embora o Brasil se tenha descolado da região, tanto pela dimensão da sua economia como pela percepção diferenciada que o resto do mundo passou a ter do País, a Argentina continua sendo um vizinho de grande relevância para o desempenho das nossas exportações, especialmente de manufaturados. Nada mais natural, portanto, que se preste atenção nos rumos que ela deve seguir nos próximos anos.

O contexto em que os argentinos chegarão às eleições será marcado pelas seguintes características:

O bom desempenho do nível de atividade econômica, com uma trajetória de poucos sintomas da crise internacional em 2008/2009 e crescimento intenso posteriormente, tanto em 2010 como em 2011, o que fortalece o discurso oficial centrado na continuidade;

um inicialmente elevado grau de rejeição aos Kirchners por parte da opinião pública – cansada de um estilo de confronto que ao longo dos oito anos de governo fez este acumular atritos com a oposição, a mídia, a classe média, a Igreja, os setores ligados ao campo, o peronismo dissidente, o empresariado não passível de cooptação, etc. -, mas que foi claramente mitigado após o falecimento de Néstor Kirchner e a hábil exploração política do luto pelo governo, em geral, e por Cristina Kirchner, em particular;

sete anos de mentiras em matéria de inflação, grosseiramente manipulada e fonte de deterioração na credibilidade de algumas variáveis reais chave, uma vez que se toma como referência, para deflacionar valores nominais, um índice em cuja veracidade não existe um único argentino que confie;

uma divisão inegável no bloco oposicionista, fragmentado em pelo menos cinco grupos distintos de certa expressão;

e uma regra específica, fruto do “Pacto de Olivos”, o acordo constitucional consagrado por Menem e Alfonsín há mais de uma década e por meio do qual a regra para que um candidato presidencial vença as eleições no primeiro turno é que ele tenha pelo menos 45% dos votos válidos ou 40%, se a diferença em relação ao segundo colocado for de pelo menos 10%.

Em tais circunstâncias, o lema do kirchnerismo parece ser a velha estratégia de “dividir para reinar”. Para entender as possibilidades dessa lógica dar certo, é preciso entender as nuances que marcam os diferentes grupos de oposição.

Há cinco setores diferentes entre eles, que, mesmo que nem sempre tenham candidatos a presidente, encontram grandes dificuldades para se compor:

1) O peronismo dissidente. Representa a corrente dos peronistas que, mesmo tendo estado ligados por uma razão ou outra e em maior ou menor medida ao partido governante no passado, dele se afastaram com o tempo. Inclui, entre outros, o ex-presidente Eduardo Duhalde, o ex-governador da Província de Buenos Aires Felipe Solá, o candidato a governador dessa província Francisco de Narváez e o diversas vezes favorito a presidente, mas nunca candidato, Carlos Reutemann, velho conhecido dos brasileiros da época em que disputava corridas de Fórmula 1 com Emerson Fittipaldi na década de 70.

2) Elisa Carrió e seu grupo. Trata-se de um partido heterogêneo de políticos congregados em torno de “Lilita” Carrió, uma candidata que, ainda que com ideias econômicas mais vinculadas ao centro, tem personalidade que a aproxima muito da imagem da ex-senadora Heloísa Helena, fama de intransigente e é autora de diversas denúncias contra muitas personalidades da política.

3) Os radicais da União Cívica Radical, do falecido Alfonsín, liderados agora pelo seu filho Ricardo, de notável semelhança física com o pai, algo naturalmente explorado pelos seus “marqueteiros”, dada a boa imagem de honestidade e defensor da democracia deixada por Alfonsín, apesar da hiperinflação que marcou o final do seu governo, em 1989.

4) A centro-direita, representada pelo prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri, ex-presidente do Boca, o clube mais popular da Argentina, e com boa imagem na capital federal, mas com dificuldades importantes para penetrar em escala expressiva no interior do país e que por isso pleiteará a reeleição na capital.

5) A esquerda clássica, que lembra as ideias do PSOL, muito enraizadas numa proporção importante do eleitorado argentino e, agora, revitalizadas sob a liderança do conhecido cineasta Pino Solanas.

Para vencer, se concorrer à reeleição, Cristina Kirchner precisa de duas condições, admitindo que, se houver segundo turno, tenderia a enfrentar uma união da maioria dos demais candidatos contra o governo, em cujo caso seria mais difícil ganhar.

A primeira é seduzir segmentos do eleitorado que no passado foram maltratados pelo casal Kirchner, para chegar nos 40% que são condição sine qua non para evitar o segundo turno. E a segunda é torcer para que a oposição se divida e, entre os representantes da oposição, ninguém se destaque a ponto de encurtar a diferença com o candidato oficial para os menos de 10% que causariam o ballotage.

Parte do debate político na Argentina nos próximos meses, portanto, vai girar em torno da aritmética.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 23/05/2011

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