A nova inflexão da economia

Desde 1998 não se via numa eleição candidatos com propostas econômicas tão distintas. Isso é relevante em qualquer eleição, mas ainda mais importante atualmente, pois a economia brasileira vai passar por uma inflexão durante o próximo mandato presidencial.

Me explico. Nos últimos nove anos e meio, a taxa de consumo aumentou em média 0,66% do PIB ao ano, enquanto a formação bruta de capital teve alta média anual de 0,03% do PIB. A contrapartida foi uma queda das exportações líquidas de 0,68% do PIB ao ano. Essa dinâmica é insustentável.

É fácil perceber que em breve será necessário reduzir a taxa de consumo

A história brasileira é marcada por ciclos de alta e queda da taxa de consumo, associadas em geral a mudanças nas condições de financiamento externo. Picos anteriores de alta ocorreram em 1952, 1974 e 1997; pontos de baixa em 1965, 1984 e 2004. O investimento acompanha esses ciclos, com variações ainda mais pronunciadas, ainda que com defasagem.

Para padrões históricos, nossa atual necessidade de financiamento externo está elevada, por conta de uma taxa de consumo que está próxima ao pico atingido em episódios anteriores de inflexão. Nos 12 meses até junho de 2014, o consumo respondeu por 85,3% do PIB, 0,5% do PIB a mais do que em 1997, com destaque para o consumo da administração pública, que subiu 2,2% do PIB nesse período. O investimento, por sua vez, já iniciou um processo de ajuste, com queda de 1,8% do PIB desde o seu pico em 2010. Ainda assim, está 0,3% do PIB acima do registrado em 1997.

No todo, o último dado disponível das contas nacionais mostra consumo e investimento somando 103,0% do PIB, contra 102,2% do PIB em 1997. A situação foi aliviada pela queda recente dos estoques (0,3% do PIB), mas ainda assim nossa necessidade de financiamento externo, que segue aumentando, já supera em 0,4% do PIB a observada em 1997.

Em 1952 e 1997, a expansão no consumo se deu após altas nos nossos termos de troca. O mesmo ocorreu com a recente elevação do consumo. Por outro lado, os programas de redução da demanda doméstica tiveram seu auge após uma queda nos termos de troca, como em 1965, 1984 e 2004. Isso magnificou a necessidade de redução da demanda doméstica.

Tudo indica que esse padrão irá se repetir. Nossos termos de troca estão em queda desde 2012 e devem continuar caindo, pois o quadro externo está ficando menos favorável ao Brasil. De um lado, pelo menor crescimento chinês, reduzindo a demanda por commodities. De outro, pois a farta liquidez internacional começa a ser enxugada, aumentando a volatilidade e reduzindo o preço de ativos em países mais vulneráveis. A menor liquidez e a valorização do dólar também vão pressionar para baixo o preço das commodities. Tudo isso afeta o Brasil diretamente, mas também via menores importações de manufaturados de países latino americanos.

Assim, é fácil perceber que em breve será necessário reduzir a taxa de consumo. Como em outros momentos de nossa história, a queda nos termos de troca aumentará o ajuste necessário.

Governo e oposição têm diagnósticos distintos sobre o atual quadro de estagflação com déficit externo elevado; portanto, também têm propostas distintas para combatê-lo. A oposição credita nossos problemas aos erros de política econômica; o governo os atribui à economia internacional e à falta de crédito ao consumo, como bem exposto na última coluna de Claudia Safatle (www.bit.ly/1wNb6HE). A oposição defende um forte ajuste econômico; o governo não vê necessidade de mudanças e acredita que as coisas se acertarão sozinhas, conforme as economias desenvolvidas voltem a crescer.

A proposta das oposições é reduzir a taxa de consumo acelerando o crescimento do PIB e limitando o do consumo, especialmente o da administração pública. Isso permitiria aumentar a taxa de investimento sem ampliar a necessidade de financiamento externo. Para chegar lá propõe um choque de oferta, focado em melhorar os fundamentos macroeconômicos e o ambiente de negócios, o que estimularia o investimento e o aumento de produtividade. O desafio é aprimorar o ajuste desse tipo feito em 1998-2004, quando o consumo total cresceu em média 1,6% ao ano, menos que os 2,2% de alta anual do PIB.

Ao contrário de alguns colegas, que apostam que a política econômica será substancialmente mudada em caso de reeleição, eu acredito na presidente, quando esta nega essas alterações (www.bit.ly/1lBOti1). O risco é que mais quatro anos de Nova Matriz Econômica produzam resultados iguais aos dos últimos anos, em especial baixo crescimento. Nesse cenário, a história ensina que o ajuste será feito pelo mercado: o Brasil perde o grau de investimento em 2016, o câmbio se desvaloriza, os juros sobem, o crédito contrai, aumenta o desemprego e o consumo privado cai mais que o PIB, reduzindo a necessidade de financiamento externo.

Nos dois cenários, um menor crescimento do consumo vai ser impopular e pode gerar turbulências sociais. Saber administrar esse processo será essencial para garantir uma transição menos custosa.

Fonte: Valor, 03/10/2014.

RELACIONADOS

Deixe um comentário