Quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

A nova riqueza das nações

O presente cenário global carrega o potencial de uma inédita e bizarra contradição.

Desde que o processo de inovação tornou-se motor da prosperidade, possibilitando o irromper de sucessivas revoluções industriais em torno da máquina a vapor, do método fordista de produção em série, do software e da Internet, e agora da computação em nuvem e da economia compartilhada, sempre se verificou uma coincidência.

O epicentro da economia global —primeiramente o Reino Unido e depois os EUA— simultaneamente desempenhava o papel de grande defensor do livre comércio.

Com a emergência de candidatos como Donald Trump ou Bernie Sanders, salienta-se, ao contrário, a perigosa fronteira populismo-protecionismo. Se este binômio vingar, observaremos o curioso fenômeno daquela que é —ainda— a maior economia global (os EUA) “escondendo-se” da globalização.

Há exatos 240 anos, o escocês Adam Smith publicava aquele que se tornaria o primeiro livro clássico de economia. Propôs-se a examinar a natureza e as causas da ‘Riqueza das Nações’.

Especialização, divisão do trabalho, ambição, propensão ao comércio, e pouca intervenção do governo nos assuntos do mercado são os elementos que a “Mão Invisível” otimiza de modo a permitir um fluxo de riquezas sem precedentes.

Nestes últimos dois dias, o indispensável “Fórum da Liberdade”, organizado há 29 anos pelo IEE (Instituto de Estudos Empresariais) em Porto Alegre, retomou, por meio de sua pergunta-tema (“Quem Move o Mundo”?), a discussão sobre quais são os vetores essenciais da ascensão ou declínio das nações. Ante o fortalecimento dos populistas-protecionistas, a questão não poderia ser mais premente.

Tenho realizado estudos de modo a atualizar qual deva ser a compreensão do fator predominante para arremetida econômica das potências.

Muitos consideram o “capital” como a peça central. Contudo, Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico de Davos, argumenta que o capitalismo já foi substituído pelo “talentismo” como sistema econômico. Da mesma forma que vivemos o ciclo do aço ou do microprocessador, o grande diferencial competitivo de empresas e nações residiria em liderar a “Nova Era do Talento”.

Outros identificam na intensidade do “trabalho” o grande divisor de águas. Hoje, no entanto, a próspera Alemanha é o país dentre as 20 maiores economias do mundo com menor número de horas trabalhadas ao longo do ano.

Alguns apontam a necessidade de um país experimentar os horrores da guerra para criar a disciplina necessária à prosperidade. Fosse o caso, a Rússia, com seu histórico de terríveis provações militares que confrontou nos séculos 19 e 20, seria a nação mais rica do planeta.

Certos “deterministas” discorrem sobre a influência do clima mais quente como desincentivador à atividade econômica, mas como então explicar o sucesso de Cingapura, Hong Kong ou Austrália?

Há ainda os que se centram exclusivamente na educação e na ciência. A Argentina em fins do século 19 construiu belos sistemas de ensino, e ainda assim isso não foi suficiente para estancar sua derrocada ao longo do século seguinte.

A União Soviética no início dos anos 1970 tinha a maior população mundial de cientistas. Construíam foguetes capazes de competir na corrida espacial-militar com os EUA, mas não logravam fabricar um despertador que tocasse na hora ou um fogão que esquentasse a comida.

Apontando para a China dos últimos 40 anos, outros ressaltam a importante de um regime forte e autoritário para o crescimento econômico.

E, de fato, a arremetida chinesa, um dos maiores milagres da história da humanidade, deu-se num contexto sem marcos regulatórios, imprensa livre, plena liberdade de expressão, agências reguladoras, referências corporativas de compliance ou transparência, ou clara independência dos poderes.

Esquecem, contudo, que da Revolução Maoísta de 1949 até Deng Xiaoping iniciar reformas econômicas em 1978, a China era igualmente autoritária. E, ainda assim, o país não estava indo a lugar algum —e sua renda figurava dentre as mais baixas do mundo.

Numa grande síntese, o que se pode afirmar é que as nações tornam-se mais prósperas não quando evitam, mas quando combinam seus diferenciais competitivos de forma a adaptar-se exitosamente à globalização.

Nesse sentido, o Brasil, uma das economias mais fechadas do planeta, tem muito o que aprender e a fazer.

O país pode, contudo, estar na contramão dessas tendências mais insularizantes que se percebem mesmo em nações tradicionalmente identificadas com a defesa do livre comércio, como é o caso dos EUA.

E isso seria extremamente bem-vindo. Na política brasileira, estamos encerrando um ciclo populista-protecionista. Isso pode converter-se numa grande vantagem comparativa em termos de negociações comerciais de caráter bi e plurilateral.

No limite, a história aponta que se moldar à globalização e dela tirar proveito é a grande fonte da riqueza das nações.

Fonte: Folha de S.Paulo, 13/04/2016.

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