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Falta em São Paulo uma instituição que possa mobilizar diferentes setores da sociedade para discutir, do ponto de vista do interesse nacional e com projeção para o futuro, políticas públicas na área das relações internacionais e de estratégias globais para o País.

O Estado de São Paulo é a 19.ª maior economia do mundo, a segunda maior da América do Sul e a 5.ª maior das Américas, após EUA, Canadá, Brasil e México. É o maior polo de atração de investimentos na América Latina e conta com a maior concentração de corporações multinacionais do continente. A despeito dessa relevância, São Paulo carece de um núcleo dedicado a discutir questões de políticas e de negócios internacionais, nos moldes de think tanks, tais como o Cari (Argentina), a Chatham House (Reino Unido), o Council on Foreign Relations, o Council on Strategic and International Studies e o Aspen Institute (EUA).

A marginalização atual do Brasil no cenário internacional representa um problema para as empresas, o que requer um esforço específico para encontrar formas de superá-la. Recuperar a projeção externa e se reinserir nos fluxos dinâmicos do comércio exterior são os maiores desafios que a Nação enfrenta. A crescente presença brasileira em fóruns internacionais, inclusive nas áreas de comércio e meio ambiente, cria uma demanda, para empresas e para diferentes setores da sociedade (indivíduos, estudantes, universidades e outros interessados), que poderia ser atendida pela criação de um centro de estudos e de formulação de propostas nessas áreas.

É importante, assim, a constituição de uma entidade destinada a firmar-se como um centro de discussão relevante, que denote valor instrumental para a comunidade de negócios localizada no Estado e suscite a atenção de todos os interessados na agenda externa do País.

A criação do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice) visa a dotar o Estado de São Paulo, a partir de abril, de uma instituição com foco em política internacional e no comércio exterior, com ênfase em aspectos voltados para os interesses empresariais, governamentais e da sociedade em geral. Trata-se de uma entidade privada destinada a lidar com questões que afetam toda a coletividade, indistintamente. A nova entidade não se debruçará sobre temas puramente teóricos nem se destina a fazer lobby, mas constituirá uma ponte entre esses dois âmbitos de atuação, complementando suas funções e orientando-os numa agenda de atuação prática.

O Brasil conta com poucos organismos da sociedade civil que questionem e exerçam influência junto ao governo com o objetivo de lograr que este modifique políticas em curso ou adote as que atendam aos interesses da comunidade de negócios e aos da sociedade como um todo.

Sem fins lucrativos, o Irice destina-se a ser uma entidade independente e totalmente desvinculada de partidos e de grupos de interesse. O Irice abster-se-á de assumir posições oficiais em matéria de políticas e não se guiará pelas preferências políticas ou ideológicas de seus interlocutores e colaboradores, mas terá em conta apenas a relevância da contribuição individual de cada especialista, no tocante a cada uma das políticas públicas examinadas, sempre com o foco em resultados concretos.

Inicialmente, o instituto funcionará de forma virtual, oferecendo um espaço para a discussão de temas da agenda externa do Brasil. Foi criado um conselho consultivo integrado por personalidades da sociedade civil que se interessam pela discussão de questões de política global e de comércio exterior.

O Irice receberá personalidades visitantes de passagem por São Paulo e promoverá encontros e intercâmbios para discussão de temas relevantes de relações internacionais do Brasil e de comércio exterior. Da mesma forma, dispõe-se a criar grupos de trabalho e forças-tarefa voltados para a produção de relatórios de diagnósticos com recomendações de políticas.

Funcionando como um think tank, segundo modelos europeus e norte-americanos, o instituto inicialmente deverá desenvolver seu trabalho, em especial, nas áreas de política externa, defesa incluída, comércio exterior, compreendendo investimento, negociações internacionais, competitividade, inovação, clima, meio ambiente, energia e segurança alimentar.

O instituto poderá interessar a operadores de relações internacionais, corporações públicas e empresas privadas, associações empresariais, consultorias, universidades, imprensa e sociedade civil em geral.

O Irice deverá associar-se a instituições no exterior com objetivos semelhantes, de modo a promover reuniões sobre política externa e comércio exterior, ou outras a serem definidas segundo uma agenda comum. Nesses casos, serão acordadas previamente formas operacionais de colaboração e um programa de trabalho que possam beneficiar todos os envolvidos.

O Irice se somará ao grupo de instituições que se dedica, sob diferentes formas e prioridades, ao acompanhamento de assuntos de relações internacionais e de política externa do Brasil – tais como o Cebri, no Rio de Janeiro, e o Gacint, vinculado à Universidade de São Paul0 (USP), ou de comércio internacional, na linha do Centro de Comércio Internacional e de Investimentos da FGV de São Paulo.

O funcionamento regular do instituto ocorrerá no início de abril, com um encontro para discutir as relações políticas e comerciais do Brasil com seus principais parceiros – Argentina, China e EUA –, os resultados da reunião de Paris sobre mudança de clima e a posição do Brasil, e, finalmente a geopolítica das diferentes fontes energéticas e as políticas brasileiras em relação às fontes renováveis e não renováveis de energia.

Fonte: O Estado de S.Paulo, 22 de março de 2016

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