No centro de pensamento estratégico do governo da Colômbia, participei de encontro sobre o Brasil e a Ásia, com ênfase no nosso relacionamento com a China. Mais recentemente, a convite do fórum de análise estratégica do governo francês em Paris, representei a Fiesp em colóquio sobre o novo mundo em formação como consequência das profundas transformações por que passa o cenário internacional. O Brasil foi o único membro do Brics presente no encontro, o que sinaliza o interesse que o país hoje desperta.

A presença do primeiro-ministro francês, François Fillon, na abertura do evento parisiense, e do presidente Nicolas Sarkozy, no encerramento, no Palácio Elysée, dá a dimensão da importância do encontro. Ficou claro que a crise acentuou a perda da competitividade e a desindustrialização que, agravada pela concorrência desleal e pelo dumping cambial, está acarretando desemprego e baixo crescimento na grande maioria dos países no continente europeu.

A palavra de ordem, repetida inúmeras vezes pelos líderes políticos e empresariais, participantes do encontro, foi “reciprocidade de tratamento nas trocas comerciais e nas políticas industriais”. O protecionismo, condenado retoricamente por todos, estava presente nas entrelinhas dos pronunciamentos e ficou subentendido na nova ênfase colocada na reciprocidade.

O mundo multipolar que vem se desenhando traz o risco de novas tensões, mas, se a comunidade internacional conseguir colocar em vigor uma nova governança global, também oportunidades sem precedentes de cooperação. A reforma do Conselho de Segurança da ONU, com a inclusão do Brasil, da Índia, da Alemanha, do Japão e de representante da África – continente que em 2050 terá mais habitantes do que a China e a Índia juntas, no dizer de Sarkozy – foi defendida abertamente. A necessidade de mudança da Organização Mundial de Comércio (OMC) foi igualmente reconhecida como urgente, juntamente com ajustes nas organizações financeiras como o FMI, o Banco Mundial, a exemplo do que aconteceu com o G-20, diretório mais representativo do que o G-7 para a discussão das questões econômicas e financeiras globais. O poderio econômico não pode ser durável sem responsabilidade política, como, por exemplo, a luta contra a pobreza, a paz e a segurança internacionais.

A transição para esse novo mundo não será imediata, mas o processo já está em curso e não tem volta. Em minhas intervenções, ressaltei que estamos no limiar de um mundo pós-ocidental e que o modelo de crescimento europeu terá grande dificuldade para se recuperar. Mostrei que o mundo multipolar em formação terá como polo político e econômico-financeiro não o Atlântico, mas o Pacífico, e que o rearranjo produtivo mundial, com a China se tornando o grande produtor industrial global, tornará difícil recuperar o crescimento e a redução do desemprego na maioria dos países da Europa. Acentuei ser imperativo que as potências hoje estabelecidas reconheçam as novas circunstâncias internacionais criadas por países como o Brics e, em vez de resistir, acelerem as modificações necessárias para uma nova governança global, em especial no tocante ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, cuja composição está congelada desde 1945 e reflete uma situação política de pós-guerra, hoje totalmente superada.

Foi interessante verificar a dificuldade de grande parte dos participantes de reconhecer a perda de poder do continente europeu no mundo que emerge. Uma nova política industrial, demandada por todos os empresários presentes, enfrentará resistências dos grupos sociais que se sentirão prejudicados com a redução, no altar da competitividade, dos programas de assistência e dos ganhos conquistados.

Os problemas da indústria brasileira se assemelham muito aos dilemas industriais europeus. Aumento da competitividade e atração de investimentos na inovação são também nossos desafios. A diferença reside no fato de que, pelo menos na Europa, existe o reconhecimento do problema e medidas concretas estão sendo tomadas. Chegou a hora de o governo brasileiro fazer a sua parte para evitar a desindustrialização e o desemprego.

Fonte: O Globo, 13/03/2012

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