O Globo, 23 de abril de 2007

Fomos, durante duas décadas, o paraíso dos rentistas e o inferno dos empreendedores. Juros extraordinariamente elevados e crescimento medíocre, causados pela expansão ininterrupta dos gastos públicos, em meio ao esforço isolado de aperto monetário pelo Banco Central. Duas décadas de quadratura do círculo: planos de estabilização sem mudança de regime fiscal, por onde começaram todos os programas antiinflacionários bem-sucedidos em curto espaço de tempo.

O setor financeiro foi deformado pela atribuição de girar diariamente, com base em depósitos de <em>overnight</em>, uma colossal dívida pública em meio à hiperinflação. Pela conveniente arquitetura financeira, o governo pagou regiamente aos financistas, seus fiéis acompanhantes nessa visita ao inferno. Mas está em andamento um processo que faz parte da regeneração da função dos bancos no Brasil.

A explosão do crédito ao consumidor sob várias modalidades, e, particularmente, o crédito habitacional aos setores de baixa renda, é um fenômeno de extrema importância para a geração de renda e a criação de empregos, que veio para ficar. É também incipiente um mecanismo pelo qual o sistema financeiro começa a desempenhar sua função básica de avaliar, selecionar e filtrar planos de negócios empresariais para então destinar recursos aos novos empreendimentos mais promissores. O melhor funcionamento do mercado de capitais dará fôlego para as empresas implementarem investimentos de longo prazo em grande escala.

Com a queda dos juros, baixam as transferências de renda do governo para os rentistas, deslocando as aplicações de títulos de renda fixa para as ações. A bolsa sobe, pela pressão sobre o preço dos ativos existentes, atraindo novos empreendimentos e novos lançamentos de ações. O problema é que houve, por décadas, um represamento das ondas de investimento e, agora, o dique está sendo rompido subitamente. Etapas importantes estão sendo queimadas.

Normalmente, uma empresa emergente receberia recursos de fundos especializados, que a preparariam, em termos de melhor governança e maior transparência, para sua chegada ao mercado de ações. E, após anos de preparação para sua futura convivência em bolsa com sócios de todo o mundo, essas empresas fariam seus papéis chegar aos investidores pelas plataformas de distribuição dos grandes bancos de investimento. Mas, com a abundância de liquidez — pela queda dos juros internos e pela elegibilidade do Brasil para os portfólios globais — e com a escassez de empresas listadas em bolsa, essa importante etapa de preparação está sendo queimada.

Empresários sagazes, banqueiros em busca de comissões e gestores de recursos ambientados apenas a mercados de alta suprimiram essa preparação, pois, com a corrida às bolsas, quase todo lançamento de ações era um sucesso. É claro que haverá muitos equívocos nesse processo ainda experimental, agravando os riscos inerentes às aplicações em bolsa. De uma fase inicial na qual os papéis subiam justamente e apenas por sua escassez, e quase todos os lançamentos eram um sucesso, num futuro próximo serão mais importantes as qualidade intrínsecas de cada companhia. Da ciranda à regeneração, são novos tempos e novos riscos.

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