“O futuro está em aberto; não é predeterminado e, deste modo, não pode ser previsto – a não ser por acidente. As possibilidades contidas no futuro são infinitas.” (Karl Popper)

As duas principais forças intelectuais que transformaram o pensamento social durante o século XVIII – o socialismo moderno e o positivismo moderno – tiveram origem em Paris, através de cientistas e engenheiros influenciados pelo sucesso nos avanços da ciência. A exportação dos métodos da ciência natural para as ciências sociais produziria aquilo que Hayek chamou de “cienticismo”. Em The Counter-Revolution of Science, Hayek disseca os problemas desta postura, mostrando como a arrogância racionalista acabou levando muitos pensadores, paradoxalmente, a uma crença irracional.

Quando o cientista alega estudar fatos objetivos, o que ele quer dizer com isso é que ele tenta estudar coisas, independente do que os homens pensam ou fazem sobre elas. Por outro lado, as ciências sociais ou morais estão preocupadas com as ações conscientes dos homens, ações que podem ser escolhidas pelos próprios homens. O que cada um pensa sobre essas coisas, portanto, passa a ser de crucial importância para as ciências sociais. Na falta de termos melhores, pode-se dizer que o método da ciência natural é “objetivo”, enquanto nas ciências sociais ele é “subjetivo”. Podemos compreender a ação humana porque partimos de uma introspecção, assumindo que estamos lidando com uma característica comum a todos: a mente humana.

A teoria econômica, por exemplo, não tem nada a dizer sobre os discos de metal que uma visão objetiva ou materialista pode tentar definir como dinheiro. O que importa é o significado que as pessoas atribuem a estes discos, que podem ser entendidos somente através de suas ações. Apenas o que as pessoas conhecem ou acreditam pode representar um motivo para sua ação consciente. Enquanto as coisas no mundo externo não se comportam de forma diferente devido ao que pensamos delas, o comportamento humano depende claramente do que cada um pensa sobre ele. Muita confusão surge justamente quando os métodos das ciências natural e social são misturados. O cientista social começa a tratar, nesse caso, a subjetividade dos indivíduos como um dado objetivo, que pode ser observado de fora, permitindo a descoberta de “leis de comportamento”, tais como as leis naturais. O behaviorismo é um exemplo claro disso.

Hayek chama a atenção para o coletivismo metodológico desses pensadores, ou seja, a tendência de tratar coletivos – sociedade, classe ou nação – como se fossem objetos dados pela natureza, que podemos descobrir leis pela observação de seu comportamento enquanto coletivos. Esses pensadores tratam o fenômeno social não como algo do qual a mente humana faz parte, e que cuja organização pode-se reconstruir pelas partes familiares, mas como se fossem objetos diretamente percebidos enquanto coletivos. Bastaria o cientista social observar a “nação” para compreender as leis que guiam seu comportamento, ignorando que nação é apenas uma abstração de nossa mente, um constructo para definir e agrupar justamente partes individuais com características similares. Essa postura erra ao tratar como fatos objetivos aquilo que não passa de modelos construídos pela mente humana para explicar a conexão entre algum fenômeno individual que observamos; no caso, a nacionalidade dos indivíduos.

Uma nação ou classe não existe como dados da natureza, assim como pedras ou montanhas, mas são agrupamentos artificiais que fazemos justamente para tentar explicar as relações individuais. Quando atribuímos características de personalidade a coletivos como sociedade ou nação, incorremos no risco de inverter as coisas, analisando o coletivo como se fosse um ente concreto. Esse conceito antropomórfico de coletivos mentais acaba gerando efeitos perversos nas ciências sociais. O esforço de tratar o fenômeno social como um todo observável pode ser entendido pelo desejo de obter uma visão distante na esperança de que certas regularidades irão surgir, enquanto permanecem obscuras num olhar mais próximo das partes. Seria a tentativa de enxergar a floresta com suas “leis”, ignorando as árvores. Essa “visão macroscópica” pode muitas vezes impedir a visão real das partes existentes. Na maioria dos casos, essa crença de que é possível enxergar o todo com critérios objetivos não passa de uma ilusão.

A aplicação deste coletivismo metodológico no estudo da história traz muitas complicações, e acaba produzindo o que ficou conhecido como “historicismo”. Analisar fatos históricos sempre irá depender de quais perguntas desejamos responder. Um mesmo fato ou época podem representar inúmeras análises, dependendo do que se pretende estudar. A visão ingênua que trata os fatos complexos que a história estuda como dados naturais, leva à crença de que sua observação pode revelar “leis históricas” do desenvolvimento desses coletivos. Segue-se disso a tentativa de criar uma teoria da história, ou filosofia da história, que estabelece fases necessárias ao desenvolvimento histórico. Os autores destas pseudo-teorias da história acreditam ser capazes de chegar por um atalho mental direto nas “leis” de sucessão dos fatos. Os mais conhecidos expoentes dessa filosofia da história foram Hegel, Comte e Marx.

Esse “historicismo” é contraditório, pois se a mente humana fosse variável e determinada pela época histórica, nós não teríamos como compreender diretamente o que as pessoas de outros tempos queriam dizer, e a história seria inacessível. A mente da qual podemos falar de forma compreensível deve ser uma mente como a nossa. Um observador de Marte não poderia compreender as ações humanas pela simples observação, se ele não fosse capaz de reconstruir nossas ações com base numa mente semelhante a nossa. Caso contrário, seria como observar os atos de um formigueiro, sem nenhuma chance de capturar de maneira inteligível os motivos de cada ato. Quando não podemos mais reconhecer categorias de pensamento similares àquelas que pensamos, a história deixa de ser uma história humana.

Essas atitudes coletivistas costumam resultar de uma incapacidade de compreender como ações individuais independentes de muitos homens podem produzir coletivos coerentes, estruturas persistentes de relações que possuem importantes funções sem que tenham sido designadas a este propósito. Esses pensadores coletivistas tratam todas as estruturas sociais como o resultado de um design deliberado, como invenções conscientes dos seres humanos. Um bom exemplo é a língua de um povo. Até o século XVIII, muitos homens pensavam que a língua tinha sido “inventada”, no sentido de ter sido criada deliberadamente por alguns com este fim. Aceitar que coisas tão úteis como a língua possam ser fruto de uma ordem espontânea exige reflexão e também muita humildade.

Em vez de instituições, Hayek prefere inclusive usar o termo formações para descrever essas organizações que surgiram sem uma intenção deliberada. Tais como as formações rochosas, que foram sendo moldadas ao longo dos séculos, a língua, a moeda, a moral, a família e demais organizações apareceram através de ações de diferentes indivíduos ao longo do tempo, sem que cada um deles tivesse noção exata do que estava ajudando a construir. Mas, da crença de que nada útil aos homens pode ter surgido sem sua consciência, muitos saltam para a crença de que, como todas as instituições foram criadas pelos homens, cabe a eles remodelar da forma que desejarem tais instituições. Eis onde o non sequitur representa enorme perigo, pois, como Hayek lembra, não só essas instituições foram criadas muitas vezes sem a consciência humana, como elas também são preservadas porque seu funcionamento depende de ações de pessoas que não são guiadas pelo desejo de mantê-las existindo*.

Na prática, o coletivista demanda que todas as forças da sociedade sejam colocadas sob o controle de uma única “super mente”, enquanto o individualista reconhece os limites dos poderes da razão individual, e conseqüentemente prega a liberdade como meio para o máximo desenvolvimento possível pelo processo entre diferentes indivíduos. De um lado, temos a humildade do individualismo, que reconhece os limites da razão individual na construção e progresso da civilização; do outro, temos a arrogância do coletivismo, que mira no controle consciente de todas as forças da sociedade**. Esse abuso da razão acaba produzindo uma ideologia totalmente irracional, que deposita num indivíduo ou pequeno grupo de indivíduos o poder de moldar e direcionar toda uma sociedade de cima para baixo. Hayek chamou esse abuso da razão de “intelectualismo”, um racionalismo que falha em sua mais importante função: reconhecer os limites do que a consciência individual pode alcançar.

* Hayek explica melhor seu ponto: “Many of the greatest things man has achieved are the result not of consciously directed thought, and still less the product of a deliberately coordinated effort of many individuals, but of a process in which the individual plays a part which he can never fully understand. They are greater than any individual precisely because they result from the combination of knowledge more extensive than a single mind can master”.

** Quem conseguiu sintetizar essa mensagem de forma brilhante foi Raymond Aron, autor de O Ópio dos Intelectuais: “O liberal é humilde. Reconhece que o mundo e a vida são complicados. A única coisa de que tem certeza é que a incerteza requer a liberdade, para que a verdade seja descoberta por um processo de concorrência e debate que não tem fim. O socialista, por sua vez, acha que a vida e o mundo são facilmente compreensíveis; sabe de tudo e quer impor a estreiteza de sua experiência – ou seja, sua ignorância e arrogância – aos seus concidadãos”.

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