Dizem os ingleses que os americanos são o único povo na História que saiu da barbárie e passou ao declínio sem experimentar a civilização. Deliciosa ironia, mas certamente uma dose exagerada de desprezo aristocrático pela democrática vulgaridade dos hábitos e costumes da ex-colônia. E também uma enorme dor-de-cotovelo por seu formidável desempenho político, econômico e tecnológico. Nos livros “Dia do acerto de contas: sobrevivendo à suave depressão do século XXI” (2003) e “O império da dívida: a formação de uma crise financeira épica” (2006), Bill Bonner e Addison Wiggin examinam a perspectiva de declínio econômico dos Estados Unidos. Os autores tornam um assunto sério como a iminência de uma enorme crise financeira um verdadeiro entretenimento, uma acessível combinação de narrativa histórica, análise econômica e princípios de investimento. De agradável leitura, pouco técnicas e quase superficiais, as duas obras são profundamente esclarecedoras. Em “Dia do acerto de contas”, Bonner e Wiggin descrevem como as taxas de juro artificialmente baixas e a rápida expansão de crédito pelo banco central americano criaram uma bolha nos mercados acionários, seguida por outra no mercado de imóveis e, finalmente, um excesso de consumo envolvendo muito mais gente e muito mais crédito. “As reduções de juros do Fed empurraram tomadores de empréstimo ao endividamento cada vez mais profundo. Milhões de consumidores inocentes foram estimulados por novos empréstimos a comprar automóveis, casas e ações.” Os capítulos finais têm títulos sugestivos: “O triunfo da imprudência”, “Desalavancando a América” e “Como relaxar e apreciar o fim do mundo”. No segundo livro, “O império da dívida”, os autores comparam os atuais eventos a uma ópera ruim: pela barulheira, algo muito importante deve estar acontecendo, embora não se saiba exatamente o quê. “O povo mais rico do planeta vive à custa da poupança dos mais pobres. Os americanos gastam mais do que ganham e pensam que podem continuar assim indefinidamente. Afundam-se mais e mais em dívidas, sem pensar no acerto de contas.” “Todos os impérios passam, todos encontram um meio de se destruir: a América encontrou o endividamento. O inferno tem um lugar especial, reservado para banqueiros centrais, entre eles, certamente, Alan Greenspan. Ele traiu suas idéias, fez um pacto com o diabo em Washington e retardou uma correção cíclica natural até que saísse do Fed. Tornou-se o mais famoso burocrata desde Pôncio Pilatos e, como Pilatos, hesitou, mas no fim entregou à multidão o que ela queria: bolhas.” O prognóstico para os Estados Unidos, segundo Bonner e Wiggin, não é nada favorável. “Um crash no mercado imobiliário seria um desastre. Os consumidores americanos dependem dos preços de casas e das ações para manter seu consumo. Se tiverem de cortar, tudo o que o Fed inescrupulosamente tentou camuflar será ampliado: recessão, perdas de emprego, falências pessoais, execução de hipotecas e deflação.” A queda sincronizada dos mercados acionários globais é parte desse acerto de contas.

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