O Brasil precisa fundar o Ministério dos Alimentos. A razão é simples – não há nada mais estratégico do que alimentos. Todos os dias 58 milhões de brasileiros entram em restaurantes e lanchonetes para se alimentarem quando fora de casa. Todos os dias, cerca de 60 milhões de brasileiros vão a algum mercadinho, feira ou supermercado em busca de alimentos para consumo dentro de casa. O leitor pode imaginar o caos que um apagão no abastecimento de alimentos acarretaria para todos nós.

Existem também razões sociais para tal ministério. O setor ocupa 18 milhões de pessoas, principalmente mão-de-obra não qualificada. E o ministério se encarregaria de plano de longo prazo; subsídios federais para capitalizar o setor; avaliações contra dados da FAO; regulamentação da profissão de alimentacionista; plano de valorização de pessoal; programas alimentares para crianças e idosos.

Entretanto, não existe preocupação com o abastecimento de alimentos. O assunto não está nas manchetes nem na agenda política. A idéia de tal apagão soa ridícula. Ninguém defende ser o setor estratégico e nem propõe protegê-lo ou estatizá-lo. Entretanto os investimentos no setor são pelo menos quatro vezes maiores do que os investimentos em educação ou saúde.  De onde saem tais recursos? Afinal, não se vê donos de restaurantes nas ante-salas do BNDES e nem são lembrados em programas tipo PAC.

O abastecimento de alimentos é uma demonstração de como milhões de empresários, pequenos na maioria, descobrem o que milhões de clientes querem e mobilizam bilhões de reais em investimentos. Sem oferta ou planejamento estatal (mas muito planejamento empresarial), sem nenhuma política industrial nem renúncias fiscais, sem crédito subsidiado. O setor é um caso vivo de empreendedorismo privado e competição bastante perfeita. Claro, temos muitos brasileiros que precisam de ajuda para se alimentarem. E temos restaurantes e mercados péssimos. Mas eles não sobrevivem e ninguém pede ajuda ao governo para salvá-los. E temos muita escolha e conveniência, não temos filas e restrições de oferta. O setor corre o tempo todo atrás de clientes. Mais impressionante é que os clientes pagam muitos impostos, recolhidos na cadeia total. Na alimentação fora de casa, vão-se em impostos cerca de 46% do que gastam. Em alimentação dentro de casa, incríveis 35% dos gastos vão para o governo.

Se existisse algum ranking mundial de qualidade do setor de alimentos, o Brasil estaria entre os melhores. Bem ao contrário de outros setores que consideramos estratégicos, tais como aeroportos e escolas, por exemplo, onde vivenciamos enormes apagões. Visitando o Rio, Gary Becker comentou que a razão da excelência da educação nos EUA era a competição por alunos. Existiria mesmo excesso de oferta para o mercado doméstico, o que explicaria a grande presença de alunos estrangeiros. E existe pelo mundo competição por aviões e passageiros, com empresas privadas investindo e administrando aeroportos. No Brasil não temos competição em educação. Nem em aeroportos, onde temos um monopólio estatal. Temos insuficiência de oferta em educação e em aeroportos. Precisamos de competição por alunos e por passageiros, mas temos duas barreiras. Uma é a excessiva regulamentação – a nossa legislação inibe muito a oferta de escolas. E não permite a oferta de aeroportos. A outra é cultural – odiamos a idéia de competição em áreas que julgamos estratégicas, tais como escolas e aeroportos.

Uma jornalista perguntou à Margaret Thatcher em São Paulo qual seria o papel do Estado em setores estratégicos. Ela respondeu com aquele jeito de professora severa: “Moça, eu não sei o que é um setor estratégico. Mas se tivesse que escolher um, eu diria que é o de alimentos”.

A gente realmente não dá ouvidos à Lady Thatcher.

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