No início de 2008 as expectativas eram boas para a economia brasileira nos próximos anos. Lembro de ter assistido a um seminário no qual o palestrante dizia que se a crise não fosse muito intensa, o Brasil poderia sair ileso. Dizia ele que parecia se formar no ar uma espécie de descolamento dos países emergentes frente aos países centrais, dado que o peso na contribuição daqueles em relação a estes no crescimento mundial teria se elevado. O Brasil, em particular, se beneficiaria de três fatores básicos: 1) ter reduzido a Dívida Externa, a ponto de ter se tornado credor líquido do mundo; 2) ter reduzido os títulos indexados a câmbio na composição da Dívida Interna; 3) ter acumulado volume considerável de reservas internacionais.

Esse otimismo foi acentuado pelo comportamento da taxa de câmbio e do risco-país ao longo dos meses de crise. Desde meados de 2007, tido como marco inicial do crash financeiro nos EUA, o risco-país se manteve abaixo da média dos países emergentes. Isso foi encarado pelo mercado como algo positivo, já que em outras crises nosso risco esteve bem acima desse nível. Além disso, a taxa de câmbio, que simboliza a contaminação de uma crise externa, se manteve razoavelmente apreciada.

No período de junho a agosto desse ano, os analistas continuaram acreditando que a crise seria prolongada, porém pouco intensa. A apreciação do dólar frente às demais moedas fez muitos acreditarem que os EUA ficariam bem, vis-à-vis o resto do mundo. Em outras palavras, havia um otimismo, ainda que cercado de incertezas, em relação à maior economia do planeta. Isto se deu, em grande medida, pela postura bastante proativa do FED frente aos problemas no mercado financeiro norte-americano.

Em setembro, entretanto, as coisas começaram a mudar e as previsões mais pessimistas ganharam impulso. O pedido de concordata do Lehman Brothers representou esse movimento negativo. As bolsas de todo o mundo caíram vertiginosamente e a percepção de que o FED poderia conter a crise se modificou. Aumentou a incerteza e a volatilidade no mercado financeiro, trazendo perdas consideráveis para os investidores.

Por aqui, a taxa de câmbio se desvalorizou brutalmente. Em dois meses, setembro e outubro, houve uma desvalorização de quase 40% do real frente ao dólar. Não só isso: a moeda brasileira se desvalorizou frente a quase todas as moedas do mundo. O risco-país também disparou, apesar de ainda se manter abaixo da média dos emergentes. Houve no Brasil um fator doméstico para esse fenômeno depreciativo: as empresas nacionais apostaram a favor da continuação da apreciação da taxa de câmbio no mercado futuro. Ao verificarem que essa aposta não se confirmaria, correram para comprar dólares visando honrar seus compromissos externos. Isso, somado a fuga tradicional de capitais, fez com que o real fosse a moeda que mais se desvalorizou no período considerado.

Essa piora do cenário externo não é nada boa para o Brasil. Isto porque nossa economia já vinha tendo um desajuste interno importante, qual seja o maior crescimento da demanda doméstica frente à oferta interna. Isso gerou um brutal aumento de importações, que frente a uma virtual estagnação do crescimento das exportações e a um aumento da remessa de lucros e dividendos, fez surgir um déficit considerável na conta de transações correntes do balanço de pagamentos.

O BACEN, em seu relatório de inflação de março, sugeriu que esse déficit – esperado em US$ 30 bilhões – seria financiado pela conta de capitais. Ou seja, se esperava que houvesse uma continuação do fluxo de capitais estrangeiros para o país, compensando o movimento negativo nas transações correntes. O problema surge com a piora da crise mundial, que reduz (ou até mesmo interrompe) os fluxos de capitais para o país. Ou seja, o dilema do financiamento externo ressurge à nossa frente.

A maioria dos analistas dizia no início do ano que esse desajuste entre demanda doméstica e oferta interna seria resolvido no médio prazo, já que o investimento estava crescendo a taxas robustas. Isso significa dizer que a partir de 2010 teríamos condições de eliminar esse gap de crescimento entre os dois lados, de modo a não complicar nossa situação externa. Com o aprofundamento da crise a dúvida é se teremos fôlego para chegar até lá. Isto porque para 2009 existe uma expectativa de que esse déficit em conta corrente chegue a US$ 50 bilhões. Isso somado ao movimento na conta de capitais, que está cercado de incertezas, faz piorar o cenário macroeconômico brasileiro.

Já em 2009 sentiremos os efeitos de uma política monetária restritiva e do aprofundamento da crise externa. As previsões mais otimistas dão conta de que a economia brasileira deve crescer entre 2% e 3% e de que a inflação estará longe do centro da meta de 4,5%. Por tudo isso é preciso que se diga que não existe descolamento. O Brasil colheu os frutos de uma das maiores expansões dos últimos tempos na economia mundial. Não restam dúvidas de que também arcará com alguns caroços daqui para frente.

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