Tive a felicidade de participar, no início de dezembro, de um dos maiores encontros mundiais dedicados ao conhecimento da gestão empresarial. Cerca de 20 mil altos gerentes, dos quais aproximadamente mil executivos-chefes, participaram dos três dias da ExpoManagement, evento anual realizado em São Paulo. No encerramento, fomos premiados com uma análise do panorama mundial feita por Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia, com quem tive a oportunidade de debater.

Impressionou-me o desalento de Krugman com a crise originada em 2008. “Começou tão mal quanto a Grande Depressão de 1929: a produção industrial caiu com a mesma intensidade, e o comércio mundial desabou ainda mais do que naquela ocasião. Começou com o estouro de uma bolha imobiliária, particularmente mais intensa na América, na Inglaterra, na Espanha e, sabemos agora, também em Dubai, mas tornou-se uma crise global devido a sua dimensão financeira e à implosão do comércio mundial.” Krugman atribui a gravidade da crise ao excesso de alavancagem do sistema bancário (ou seja, realização de operações baseadas em crédito, por atores que não dispunham daquele capital) e ao descasamento entre as aplicações de longo prazo financiadas por exigências de curtíssimo prazo desse sistema.

Dos quase US$ 20 trilhões de depósitos desse sistema bancário “paralelo”, não regulamentado, em torno de 60% eram exigências de curtíssimo prazo, depósitos baseados em acordo de compra, como o nosso velho “overnight”. Quando os saques ocorreram, eles simplesmente implodiram a pirâmide de papel, espalhando a crise por meio de contágios bancários. O colapso do comércio transmitiu o choque, tanto que Alemanha e Japão sofreram o impacto inicial ainda maior do que os Estados Unidos e a Espanha, onde a bolha imobiliária era mais intensa.

Para Krugman, 2009 foi um ano de alívio, pois tanto a produção industrial quanto o comércio se estabilizaram e ensaiam a recuperação, ao contrário do aprofundamento que ocorreu na Grande Depressão. O ganhador do Nobel atribui a contenção da catástrofe aos bancos centrais, que teriam aprendido com Milton Friedman a evitar o erro de assistir passivamente à implosão bancária (como ocorreu nos anos 30), e aos gastos públicos da ordem de 40% da produção de riqueza dos países envolvidos, bem como aos estímulos fiscais. Mas continuou, desolado: “A munição acabou. As taxas de juros já estão próximas de zero, os efeitos dos estímulos fiscais são transitórios e não haverá apoio político para medidas ainda mais drásticas que seriam necessárias”. Confirmando a profecia de Ariano Suassuna de que o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão, Krugman concluiu, desesperadamente: “Precisamos de inflação, 6% pelo menos”.

Krugman vê perigo à frente, com a Bolha Brasil,
capaz de derrubar o câmbio, inflar o crédito e a Bolsa

Ele acredita que a recuperação seja transitória, com sérios riscos de retrocesso. Considera hoje mais provável uma desaceleração do crescimento mundial em 2010. Analisando crises semelhantes, ele concluiu que o desemprego subiu em média 7 pontos porcentuais a partir de seu início. Assim, a taxa, que era de 4% em 2008 nos Estados Unidos, poderá chegar a 11%. Também de acordo com a média histórica, o desemprego só começa a cair após 4,8 anos, o que sugere corte de postos de trabalho nos EUA até 2012. Para Krugman, as economias avançadas terão uma recessão prolongada. A situação é diferente para os mercados emergentes.

Agora, a perspectiva de descolamento da crise é real para a América Latina e, particularmente, para o Brasil. “Os preços das commodities permanecem favoráveis, o contágio financeiro foi menor e é inegável que se fortaleceram os fundamentos fiscais e monetários. Mas há perigos à frente: dentro de três ou quatro anos, a frustração com a recessão prolongada e o elevado desemprego podem disparar nos países desenvolvidos as barreiras do protecionismo.” Na opinião de Krugman, temos de evitar a Bolha Brasil, uma imensa onda de liquidez capaz de derrubar o câmbio e inflar o crédito e as Bolsas no atual favorito dos mercados de capitais globais.

Fonte: Revista ÉPOCA, 7 de dezembro de 2009.

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