O charme, a ginga e o veneno nos Jogos

Sebastian Coe, o ídolo do atletismo inglês que respondeu pela organização dos Jogos de Londres, já começa a exibir no rosto aquele ar de quem não apenas cumpriu o dever, como, para espanto dos descrentes, o fez de forma aparentemente tranquila.

A todos os brasileiros que tentam tirar de seu trabalho lições para 2016, no Rio de Janeiro, ele responde com palavras parecidas: é preciso se preparar. Preparar muito.

Prever todas as eventualidades, tentar antever as situações mais complexas e estar pronto para se antecipar aos problemas são lições que podem parecer óbvias para qualquer organizador de um evento desse porte.

Mas, no caso brasileiro, elas soam como novidades essenciais. As palavras de Coe deixam claro que, num evento desse porte, não existe espaço para improvisações.

E que o charme, a ginga e o veneno do povo brasileiro não serão suficientes para que os Jogos transcorram sem problemas. Por mais positivos que sejam, esses atributos não são suficientes.

Pelo que se vê, o trabalho no Rio de Janeiro será árduo. Ao contrário do que se promete para os Jogos cariocas, a capital inglesa não dependeu das instalações olímpicas para melhorar a infraestrutura urbana.

Os estádios e ginásios erguidos especialmente para os Jogos são simples, funcionais e acessíveis – e chega a soar estranha a notícia divulgada nos primeiros dias do evento de dificuldades que levaram os motoristas de algumas delegações a se perder pelas ruas da cidade.

Afinal, todos os trajetos entre os estádios, o centro de Londres e os aeroportos contam com faixas exclusivas para os carros e ônibus a serviço dos Jogos – e basta segui-las para chegar ao destino pretendido sem maiores dificuldades.

Num evento desse porte, não existe espaço para improvisações

No mais, o que se percebe é que a cidade está de fato lotada de visitantes e que as filas diante das principais atrações turísticas – como a Torre de Londres e a roda gigante London Eye – são maiores do que em períodos normais.

Mas Londres não parou por causa da Olimpíada. Não houve a decretação de feriados para impedir que a cidade entrasse em colapso diante da maior demanda pelo transporte público e do aumento do tráfego nas ruas.

A “solução” do feriado – assim mesmo, entre aspas – deverá ser adotada no Rio de Janeiro e em outras cidades brasileiras durante a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos.

Em outras palavras, o sucesso da organização de um evento como esse também pode ser medido por seu impacto na vida da cidade que o acolhe. Quanto menor e menos visível, melhor.

Isso, certamente, não deve ser interpretado como sinal de acolhida fria aos visitantes nem de desinteresse da população pelos resultados dos atletas locais. Por toda parte, há carros enfeitados com bandeiras da Grã-Bretanha e, nos estádios, a torcida pelos atletas do Reino Unido é ruidosa.

Ou seja: uma organização que não dependa do jeitinho de última hora não prejudica a festa nem impede a descontração. Pelo contrário, só permite que todos tirem dos Jogos o maior proveito possível.

Fonte: Brasil Econômico, 08/08/12

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