(O Globo, de 19 de outubro de 2004) com Héctor Leis* Norbert Elias ensina que adquirir consciência das características do “habitus” (condicionamentos comuns sedimentados pelos indivíduos ao longo da história) da nossa própria nação requer um difícil esforço de auto-distanciamento. É fácil falar do que é típico dos americanos, argentinos, japoneses ou franceses, mas abordar o “habitus” brasileiro com espírito crítico supõe entrar em território tabu defendido quase religiosamente pelos atores políticos e sociais. Embora Elias registre que o “habitus” nacional de um povo não é algo biologicamente fixado, que depende e muda de acordo com o processo de formação da sociedade e do Estado, os indivíduos parecem não concordar com isso e tendem a viver seu patrimônio cultural comum como se fosse a bandeira nacional, algo dado à nação de uma vez e para sempre. Daí a seu endeusamento existe um curto passo. A recém lançada campanha nacional, “o melhor do Brasil é o brasileiro”, com o objetivo de resgatar os níveis de auto-estima do brasileiro, talvez seja um bom exemplo desta pretensão inconsciente de um congelamento beatífico da alma brasileira. Mas isto não é apenas um preconceito dos indivíduos. As ciências sociais foram também domesticadas, nas últimas décadas, por teorias que maximizam tanto o papel histórico dos comportamentos e ideologias dos atores, quanto minimizam a importância do “habitus” na hora de pensar o destino de um país. Nas ciências sociais contemporâneas quase não existe abertura epistemológica para pensar as virtudes e defeitos que são comuns a todos os atores, por cima das diferencias de interesses particulares de cada um. O caso de Brasil não é uma exceção. Se algo tem que ser questionado, esse algo não pode ser o que os brasileiros têm em comum. Aí parece não haver nada de errado, muito pelo contrário. Por isso, nossos problemas derivam sempre dos outros, sejam eles outros atores ou outros países, mas nunca de nós mesmos. Desde Hobbes sabemos que as sociedades políticas se constroem num arco que vai do absolutismo, num extremo, à anarquia, no outro extremo. As sociedades modernas evoluíram na direção de aceitar um maior nível de conflito numa ordem crescentemente flexível, que permitisse que os indivíduos, no exercício de suas liberdades econômica e política, sejam os artífices da dinâmica social. Para que isto seja possível se requer confiança entre indivíduos e destes com as instituições. O qual gera previsibilidade, mas também inovação. As configurações políticas dominantes hoje nos países emergentes parecem se estender ao longo de um arco conceitual que recobriria dois tipos-ideais de cultura: a democrática-liberal e a populista-corporativa (com várias gradações ao longo desse continuum). As sociedades mais próximas da cultura democrática-liberal estão em rota consolidada de prosperidade econômica em todo o planeta (exemplos: Chile, Espanha, Coréia do Sul). Na cultura democrático-liberal existe um grau elevado de confiança entre os indivíduos que é causa e conseqüência da confiança e estabilidade das instituições. Num contexto mais orientado para a cultura populista-corporativa são os grupos, não os indivíduos, nem as instituições, os pilares da ordem social. Assim, uma ordem construída a partir de grupos que não se submetem facilmente às instituições gera baixa confiança, restringindo as potencialidades de prosperidade econômica. América Latina está cheia de exemplos (entre os mais conspícuos: Brasil, México e Argentina), porém, nosso país é um caso sui generis desta cultura populista-corporativa, que podemos chamar de cinismo cordial. O cinismo na política (diferente da filosofia, que pode constituir uma atitude autentica de negação de valores e consensos estabelecidos) pode ser entendido como ocultação intencional da verdade dos fatos, assim como dos valores que orientam realmente a ação dos sujeitos. Enquanto o cinismo filosófico tende a ser contraditório com a ação política, uma ética absolutista tampouco permitiria uma ação política democrática. Em toda democracia avançada o espaço da política está relacionado a uma aproximação responsável a verdade, o qual supõe não esconder diferencias nem conflitos inerentes a essas. No caso brasileiro, o cinismo cordial impede essa aproximação responsável à verdade, talvez por medo às capacidades destrutivas do conflito (em geral, não se diz “não” em publico, quando não se responde ou se responde com um “sim” difuso ou um “talvez” quer dizer quase sempre “não”; apenas um “sim” enfático é “sim”). Neste sentido, o cinismo cordial traz uma certa racionalidade ao campo da política, quando esta carece de uma racionalidade própria assentada no funcionamento de instituições confiáveis. Mas, em compensação, gera irresponsabilidade. No caso do cinismo cordial, os males do grupalismo (típico da cultura populista corporativa) são mitigados pelo caráter aberto e flexível da relação cínica cordial, ainda que esta não seja claramente individualista. Na cultura do cinismo cordial se aumenta a confiança entre grupos e em parte também das instituições mas se mantém a desconfiança inter-individual que impede uma construção institucional plenamente funcional a uma moderna economia de mercado. Numa democracia de alta confiança nas instituições não é difícil estabelecer consensos duradouros. Mas na cultura cínica cordial brasileira existem enormes dificuldades para estabelecer consensos estratégicos. Nesta cultura existe pragmatismo, embora este seja pouco realista, com baixo compromisso com a avaliação objetiva de resultados e desempenhos (como corresponde à racionalidade científico-técnica). O pragmatismo do cinismo cordial é difuso, baseado em acordos de interesses inter-grupais (grupos, corporações e máfias) que deixa fora aos indivíduos enquanto tais. Certamente, isto está associado com o sincretismo religioso, derivado da mistura da cultura portuguesa com as culturas africanas (que não estabeleceram delimitações bruscas entre as diferenças de cor e cultura). O lugar do indivíduo na cultura do cinismo cordial é problemático. Quem fala como indivíduo tout court (sem identidade grupal, qualquer ela seja) tem enormes dificuldades para ser escutado e corretamente entendido (embora existiram exceções notáveis, como Roberto Campos e Paulo Francis). As dificuldades não provem do conteúdo do discurso mas da falta de referente grupal que, em ultima instância, é a chave para a decodificação do discurso. Na ausência desta chave se gera, além de incompreensão, um certo ressentimento contra quem fala. Desde a transição democrática, o “você sabe com quem esta falando?” (denunciado por Roberto Da Matta) se traduz melhor na frase “você sabe a que grupo pertenço?”. Se no caso, algum dos interlocutores não pertence a nenhum grupo, estaria desqualificado para falar. O cinismo cordial é um modelo comunicacional dominante em todos os setores da sociedade (embora em graus diferentes, isto é valido tanto para políticos, empresários e cientistas). No presente, o cinismo se torna bastante evidente no campo das ideologias políticas. No caso da esquerda se expressa como consciência iluminada falsa, desde que existe um subentendido na esquerda de que os ideais coletivistas fracassaram (ao menos parcialmente), mas isso não pode ser explicitado porque ameaça sua identidade. No caso da direita, o cinismo cordial se expressa como consciência travestida, apresentando-se mais à esquerda do que realmente é, rendendo tributo à cultura pós-regime militar. Ainda aceitando que o cinismo cordial serviu para cimentar no passado uma realidade política e social ampla e diversa, sendo portanto relativamente funcional à transição democrática, é evidente que hoje gera desconfiança e se torna um obstáculo, tanto para a aprofundar a modernização como a democratização. Mas se o cinismo cordial está presente ao longo do espectro político brasileiro, quem poderá se animar a encampar uma campanha pelo “cinismo zero”? Assim como a tolerância, o cinismo (seja cordial ou não) também tem limite. Talvez se esteja chegando hoje ao limite, faltando apenas reconhecê-lo. *Héctor Leis é professor adjunto do Departamento de Sociologia e Política da Universidade Federal de Santa Catarina.

Deixe um comentário

1 comment

  1. Maya

    Bom dia,

    Sou estudante em relações internacionais e gostaria de enviar um email ao professor Eduardo Viola. Poderiam comunicar o contato por favor.

    Obrigada.