A psicologia dos investidores foi capturada pela ameaça de uma crise sistêmica. É por isso que o atual episódio da contaminação dos mercados de crédito desperta tanta atenção. Confirmam-se meus temores quanto à profundidade da dimensão financeira da crise. O que reforça o prognóstico de que este episódio não terá a curta duração dos anteriores.

Os mais importantes bancos centrais do mundo tiveram de injetar mais de US$300 bilhões na tentativa de desentupir os mercados de crédito. É uma prova contundente da gravidade do credit crunch. Afinal, estavam fechando as torneiras da liquidez global, uma a uma, após anos de juros baixos e liquidez frouxa. O resultado desse enxugamento gradual da liquidez, como seria de esperar, foi uma importante mudança no ambiente econômico mundial. O crash das bolsas e o crunch do crédito são subprodutos desse esforço sincronizado de esfriamento de pressões inflacionárias.

Os bancos centrais pedem agora trégua em sua guerra preventiva de combate à inflação e assumem, súbita e emergencialmente, sua função clássica de “emprestadores de última instância”. Batem em retirada no esforço de contenção de crédito e enxugamento da liquidez. Ao contrário, sob a ameaça do crunch de crédito, da implosão de fundos lastreados em hipotecas e da contaminação do sistema bancário, são forçados a reinjetar liquidez no sistema por meio de empréstimos bancários. Para enfrentar uma crise que, agora em novo estágio, é bem mais complexa.

A eclosão do que seria um risco específico do setor imobiliário desencadeou uma reavaliação generalizada de riscos sistêmicos. O aumento da aversão ao risco, a elevação dos spreads, a interrupção dos canais de crédito, os resgates dos fundos, a desalavancagem forçada e a rápida liquidação de ativos exigiram as injeções de liquidez pelos bancos centrais. Sem a reversão das turbinas monetárias, o crunch de crédito derrubaria a economia real, pois as engrenagens de produção das economias de mercado são lubrificadas por crédito. Um bloqueio dos canais de suprimento desse combustível interromperia o funcionamento dessas engrenagens produtivas. O credit crunch deflagraria uma recessão, atingindo os níveis de produção e de emprego. O que explica a ação fulminante dos bancos centrais.

Um provável efeito colateral dessa injeção de liquidez pelas autoridades monetárias das mais importantes economias do mundo é a estabilização – ou mesmo a recuperação – das bolsas. Essa recuperação dos mercados acionários seria desejável, para impedir a instauração de uma dinâmica perversa de realimentação entre as expectativas (a queda dos preços dos ativos) e os fundamentos da economia (o desabamento do consumo). Afinal, até o momento, não foram atingidas a robusta dinâmica de crescimento asiática, a persistente reestruturação econômica européia e a resiliência do endividado consumidor americano. Mas não é o crash das bolsas o fenômeno temido pelos bancos centrais, e sim o crunch no crédito. Pois, se o crash nas bolsas machuca, o crunch no crédito mata.

(O Globo, 13 de agosto de 2007)

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