Barack Obama conquistou um extraordinário mandato, tão amplo quanto o desafio que tem pela frente. Ele prometeu, por exemplo, gastar dinheiro público para estimular a economia e apoiar camadas da população que mais sofrem com a recessão. Mas receberá um governo com um déficit anual perto dos US$500 bilhões e uma dívida de US$10,3 trilhões.

Sua eleição foi recebida com entusiasmo no mundo todo, mas ele assumiu propostas de comércio externo que abrem conflitos com muitos países. Obama defendeu, por exemplo, o aumento de impostos de importação sobre produtos chineses; a manutenção ou aumento de taxas sobre a importação do etanol brasileiro; ampliação dos subsídios agrícolas; a aplicação de barreiras não tarifárias no comércio com países emergentes; e restrições aos investimentos estrangeiros.

O objetivo é proteger setores da economia americana mais vulneráveis à competição externa, um tema importante na campanha e que rendeu votos nos estados com indústrias atropeladas pela globalização. Por isso mesmo, é uma política que interessa muitíssimo à ampla maioria democrata na Câmara e no Senado, que é até mais radical que Obama nessas questões protecionistas.

Mas isso criará obstáculos às negociações para ampliação do comércio internacional, prejudicando aliados pelo mundo todo. Ontem mesmo, o presidente Lula disse esperar que Obama reduza subsídios e tarifas de importação.

Por outro lado, essa política protecionista tem um efeito interno, o aumento de preços no consumo, resultado indesejável sobretudo para a classe média e os mais pobres que já sofrem com a perda de emprego e de renda. Além disso, não se pode esquecer que preços baratos de bens de consumo, resultado da importação e de um comércio aberto, elevaram o poder de compra e o conforto das famílias. Esse comércio também beneficiou amplamente as multinacionais americanas e gerou empregos nos EUA.

Obama se comprometeu também com reduções de impostos para as companhias que mantêm suas fábricas e demais operações (e seus empregos) no país. Anunciou uma política de aumento dos salários, especialmente do salário mínimo, e de fortalecimento dos sindicatos de trabalhadores. No primeiro caso, reduz custos. No segundo, aumenta, e isso em um momento em que as empresas já estão demitindo por causa da queda das vendas.

E assim vai, entre propostas e ressalvas.

A saída é um “pragmatismo equilibrado”, escreveu no “New York Times” o banqueiro Robert Rubin, que foi secretário do Tesouro de Bill Clinton, quando aplicou uma política de responsabilidade fiscal, deixando as contas públicas com um amplo superávit, e uma diplomacia de comércio aberto e global. Para ele, é possível combinar mais gasto público hoje, e, pois, alta do déficit, com um programa de equilíbrio futuro das contas. Citou a Bíblia: tempo para gastar, tempo para poupar. Disse também que é possível combinar os benefícios do comércio aberto com apoio às pessoas e setores locais mais atingidos.

Essas políticas dependem de credibilidade. Por isso, todos aguardam com ansiedade a designação da equipe econômica de Obama. Os nomes indicarão a direção. Os mais citados até aqui têm sido bem recebidos. Alguns vêm da equipe de Clinton – o último presidente democrata, que governou durante um período de forte crescimento e geração de empregos – outros têm prestígio próprio, como Paul Volcker, que já foi presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central, quando acumulou fama de implacável com a inflação. É verdade que a inflação não será o maior problema de Obama – a recessão deve derrubar os preços – mas ele estará bem servido com um secretário do Tesouro conhecido pela responsabilidade monetária e fiscal.

Resumo da ópera: Obama desfruta da confiança do povo americano e de boa parte do mundo. Tem crédito para gastar. A culpa por essa crise obviamente não é dele. Ao mesmo tempo, desperta, nos EUA, a expectativa de que a vida vai melhorar para a classe média e para os mais pobres. No mundo, a expectativa de um presidente americano mais aberto às posições e pleitos dos outros países.

Mas, na economia, as coisas vão piorar antes de melhorar. O protecionismo será tendência forte no meio da crise. Assim, ele precisará passar a confiança e mostrar, com atos, que a situação vai mesmo melhorar, que a mudança virá.

Ele foi um grande candidato. Precisará ser um presidente melhor ainda.

(O Globo – 06/11/2008)

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