O despertar dos vigilantes

Durante décadas, os investidores dos bonds americanos foram conhecidos como “vigilantes”. Sempre alertas aos excessos na gastança governamental, esses investidores costumavam ser os primeiros a “acusar o golpe” quando um governo se empolgava demais na irresponsabilidade fiscal. Nos últimos anos, entretanto, alguns chegaram a questionar se os “vigilantes” estavam dormindo, hibernando após um longo período de elevado crescimento econômico com baixa inflação.

Vários fatores estruturais e conjunturais podem explicar, em parte, este “conundrum”, como chamou Greenspan. A entrada de bilhões de trabalhadores indianos e chineses no mercado, aceitando baixos salários, pressionou os preços finais para baixo. A revolução tecnológica gerou enormes ganhos de produtividade, permitindo elevado crescimento sem aumento dos preços finais. O “savings glut”, segundo Bernanke, ajudou a manter a taxa de juros reduzida nos Estados Unidos, pois haveria um “excesso de poupança” nos países emergentes, sem a devida segurança para aplicarem nos títulos de seus próprios governos. O “flight to quality” (ou “flight to liquidity”) durante a crise mundial fez com que os títulos do governo americano fossem o refúgio natural para todos os investidores assustados. O receio de que o “credit crunch” poderia gerar um longo período de deflação, como ocorreu no Japão, também é uma possível explicação.

Cada um apresentou a sua explicação para o fenômeno aparentemente estranho. O fato é que as taxas longas de juros dos títulos do governo americano não mostravam preocupação com o risco de inflação, mesmo com um governo cada vez mais irresponsável nos gastos, e um banco central (Fed) emitindo moeda e crédito de forma alucinada. Será que esta fase chegou finalmente ao fim? Será que a aversão ao risco está aumentando agora? Será que os “vigilantes” acordaram e começaram a exigir maiores retornos de um devedor cada vez mais cigarra e menos formiga? A taxa de juros de 10 anos, por exemplo, já se aproxima de 4% ao ano.

Se for este o caso, a conta vai ficar cada vez mais salgada para os pagadores de impostos americanos. A dívida do governo cresceu de forma assustadora, o déficit fiscal explodiu, e a perspectiva futura não é muito animadora. Enquanto isso, Obama “brinca” de fazer caridade com o chapéu alheio, impondo planos de saúde para todos e jogando o custo nas empresas. Os Estados Unidos estão cada vez mais parecidos com um típico país europeu, adepto do welfare state coletivista. Essa trajetória não costuma acabar nada bem. Investidores não ficam confortáveis – com razão – ao emprestar suas poupanças para governos que colocam o “social” acima de tudo, ignorando as calculadoras.

O avanço do governo americano sobre a economia vai criar um peso sob a iniciativa privada que poderá limitar o crescimento futuro. A emissão de mais dívida do governo poderá causar o conhecido “crowding out”, ou seja, quando o governo espanta investimentos privados por absorver o capital escasso com seus “investimentos”, inevitavelmente piores, pois realizados com critérios políticos. Em suma, os Estados Unidos, mais e mais parecidos com a França, poderão ser forçados a pagar juros maiores à frente. O mercado, por meio dos “vigilantes” dos bonds, pode ter finalmente acusado o golpe. Melhor o governo prevenir agora, encolhendo de tamanho e reduzindo suas ambições “socialistas”, do que remediar depois, como a Grécia está sendo obrigada a fazer. There is no free lunch!

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