O dia em que o Rio acabou

Na madrugada da segunda-feira, dia 5, eu acompanhava assustado a tempestade que desabava sobre minha casa em Piratininga, Niterói, ao mesmo tempo em que verificava as goteiras com as quais tenho décadas de convivência — meu avô dizia que uma casa sem goteira era uma casa sem alma — e imaginava o dia seguinte.

E o dia seguinte foi o caos: o Rio de Janeiro estava acabado e Niterói mostrava a pior face do “estado” que querem tornar mais forte em vez de mais eficiente, menos centralizado e, sobretudo, transparente. Ilhado em casa, sem telefone e internet, e colado na televisão, eu ia assistindo — coração na mão — aos desabamentos, sofria com o desespero das vítimas, ficava solidário com os desgraçados cidadãos insones que viram seus carros serem engolfados pelas ruas transformadas em perigosas cascatas e rios caudalosos.

E inevitavelmente me perguntava — pois a água limpa os olhos — qual a diferença entre esse governo e os outros? Esses tantos outros que, antes que eu viesse ao mundo, deixaram que a nossa constitutiva desigualdade escravocrata e o nosso caudaloso, descarado e pouco criticado populismo chegassem ao ponto revelado por essa apocalíptica tempestade? Toda catástrofe natural tem pelo menos dois textos. O da “natureza”, que definimos como tendo vida própria, embora hoje saibamos que ela está profundamente ligada aos nossos estilos de vida; e o da sociedade, com seus valores e fórmulas para explicar o infortúnio e as tragédias. Por isso, a tormenta contém a tempestade. A procela é o evento em si, a tempestade é a sua interpretação: o que ela ensina ou anuncia.

No Brasil — e digo isso com um misto de revolta e constrangimento — a mensagem é a sempre a mesma.

As tragédias naturais brasileiras revelam de modo claro que as retóricas políticas variam, mas o velho e bom modo de governar foi muito pouco abalado.

A intensidade das calamidades tem se agravado, mas não mudou o nosso estilo de lidar com elas. Nosso processo de enfrentá-las é notavelmente cínico: trata-se de uma calamidade e estamos todos mortificados, MAS — como ficou combinado desde os tempos de Dom João Charuto — ninguém tem culpa de nada! Minto, se alguém tem culpa é o mar, a lagoa, as montanhas, os ventos, a chuva e, esticando mais um pouco, essa pecaminosa e pervertida sociedade capitalista e de mercado e todos nós. O populismo irresponsável escapa como um rato.

Na tempestade, viramos socialistas e coletivistas de carteirinha. Passada a tormenta, voltamos ao nosso modo usual de viver e administrar os bens públicos. Nós aqui, eles lá. Nós nas nossas boas casas, eles nas moradas que os demagogos — esses defensores do povo de Deus — legalizaram: em cima de morros e encostas, onde se vive, com dizia um samba hoje esquecido, senão incorreto, “pertinho do céu…”.

Como o revoltante “ilegal e daí”, criado por um tradicional político carioca a propósito de construções irregulares, os temporais escondem, mas as tempestades revelam. Elas mostram que os governos podem ser aristocráticos ou republicanos, de direita ou de esquerda, elitistas ou populistas, militares ou civis, tortos ou direitos, mas estão todos irmanados no firme propósito de não fazer ou mudar coisa alguma. O estilo que começou com Dom João Charuto e os Pedros é — dizem as águas e os desmoronamentos mortais — imutável. Ele se caracteriza pela reação e jamais pelo planejamento e pela programação, típicos dos sistemas igualitários. A proação abunda nas campanhas eleitorais onde não se é governo. Uma vez, entretanto, no governo, a execução nos planos, travestidos em promessas mirabolantes, jamais irá ocorrer. Findo o pleito, a utopia é esmagada pelo firme propósito de continuar no poder.

Quando menino, eu pensava que o poder era um instrumento nobre e essencial para melhorar a vida dos pobres e oprimidos. Hoje, velho e descrente, vejo que — no Brasil — o poder é lamentavelmente apenas o poder: ou seja, ele serve para “poder” quem nele não entra ou não está. Ele tem como fim a sua própria personalização. Daí esse extraordinário desmoronamento, esse vazio vergonhoso, porque indesculpável, desvendado pela chuvarada.

Não temos planos e não seguimos as regras mais banais, porque não nos ordenamos de modo igualitário. Poucos têm muito, muitos têm pouco e o governo tem e quer tudo porque ele é um centro de hierarquia. A tempestade desnudou a falta de políticas públicas de moradia que contemple limites. Falta acabar de uma vez por todas com o imoral, arrogante e inconcebível “ilegal, e daí?…”. A estupefação dos governantes diante da tragédia revela que a “política” com seus conchavos e suas hierarquias pesa mais do que o gerenciamento coletivo. Elegemos bandidos e falastrões. Confundimos discursos empolados com programas. Imaginamos que parlapatões são estadistas e que demagogos são salvadores da pátria. O que vemos, entre os escombros e os gigantescos entulhos de merda, cadáveres e barro, é a sujeira do nosso mundinho político feito de gente que quer tudo, menos administrar as coletividades que os elegeram para realizar precisamente essa tarefa. Confio que algo venha a ser efetivamente mudado.

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