O diagnóstico real da crise começa a surgir

Há muitos americanos ilustres na América. Inclusive os muito ricos, que lá, talvez mais do que aqui, são capazes de reconhecer seus papéis maiores na sociedade, como é o caso do megainvestidor Warren Buffett.

Em artigo circulado mundialmente esta semana, Buffett fez um call à sociedade e aos políticos americanos, oferecendo caminhos de saída mais rápidos e seguros do que simplesmente confiar no poder inesgotável da máquina de fazer déficits do governo federal.

Outro americano ilustre, o economista Jeffrey Sachs, do Earth Institute, também ressaltou, no Financial Times da edição de ontem, a tríplice carência dos EUA de hoje: falta de coragem para agir, falta de diagnóstico preciso da crise e falta de visão do conjunto da sociedade.

Sachs arrisca o diagnóstico: seria a globalização, que teria roubado os empregos menos especializados dos estratos mais baixos da sociedade americana sem que esta esboçasse uma reação organizada.

Embora evitando apontar o dedo para a China, Sachs deixa entrever esta conclusão ao usar – a meu ver, de modo equivocado – o termo globalização como definidor da origem da perda de poder de competição da máquina produtiva dos EUA.

De fato, a ampliação do escopo competitivo mundial se ampliou formidavelmente com a incorporação de centenas de milhões de novos candidatos a trabalhos industriais na Ásia, na Índia e até na África. Prejudicou os EUA e alguns países europeus, mas nem todos! Em compensação, o mundo como um todo conseguiu dar um salto extraordinário de bem-estar e progresso.

Os desequilíbrios decorrentes dessa melhora são, agora, responsabilidade de todos e, assim, as nações em conjunto devem trabalhar para tentar atenuá-los. A China, por exemplo, deve começar a rever seriamente seu próprio modelo de câmbio artificial.

O próprio Sachs reconhece que os EUA pouco fizeram. Atuaram de modo defensivo, acelerando dispêndios em duas áreas, construção civil e guerras externas, com isso absorvendo mão de obra menos especializada.

O financiamento desses setores de não-exportáveis se deu de modo ruinoso, com excesso de alavancagem pelas famílias endividadas e pelo governo que delas depende para cobrar impostos, já que a política de Bush liberou os mais ricos de um esforço de poupança fiscal para bancar as ações militares mundo afora. Destravar o modelo americano baseado em poupança do resto do mundo será o desafio deles nesta década.

Isso implicará em empurrar parte do ajuste mundial de volta para o colo dos chineses, cujo modelo é hoje o espelho simétrico das carências americanas, ou seja, um esquema de alta taxa de poupança e alta empregabilidade, sem qualquer interesse pelo que venha a suceder aos vizinhos.

O Brasil, nesse contexto, mal despertou para as consequências devastadoras das próximas rodadas de enfrentamento da competição mundial na produção de bens e serviços. Por causa da folga momentânea que nos deram os termos de troca do comércio exterior, com preços elevadíssimos de commodities, posamos de campeões num ambiente em que nosso segmento industrial entrega pontos de competitividade a cada dia.

Nossa abordagem ao problema é gradual (vide o recente divulgação do Plano Brasil Maior), quando a urgência pediria um ataque radical e simultâneo a todos os focos do grande e crescente custo-Brasil. Antes que fique tarde demais.

Fonte: Brasil Econômico, 19/08/2011

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