“A guerra preventiva e a mudança de regime via intervenção militar podem nunca ser eliminadas completamente, mas precisam ser entendidas como medidas muito extremas.” (Francis Fukuyama)

Em seu mais recente livro, O Dilema Americano, Francis Fukuyama faz uma análise crítica do papel que os Estados Unidos têm desempenhado no âmbito internacional, assim como levanta vários problemas oriundos da guerra no Iraque. Fukuyama, que foi contra a guerra, conclui que o neoconservadorismo evoluiu para algo que ele não mais pode apoiar. Seus argumentos são desapaixonados, e sua análise imparcial. Os antiamericanos patológicos, infelizmente cada vez mais numerosos no mundo, não vão necessariamente gostar dos pontos de Fukuyama. Mas os neoconservadores radicais, fechados para qualquer crítica construtiva e paranóicos de que qualquer oposição é coisa de comunista, tampouco estarão abertos às palavras do autor. Para Fukuyama, o governo americano superestimou a ameaça que o islamismo radical representava para os Estados Unidos. Além disso, o governo Bush errou por não ter previsto a reação mundial, fortemente negativa, ao seu exercício de “hegemonia benevolente”. Entretanto, ele entende que os EUA, como única superpotência remanescente, não pode se afastar dos problemas provenientes dos estados fracos ou fracassados, por motivos de segurança ou moralidade. Reconhece também que a ONU não é e nunca será uma base eficaz e legítima de governança global, pois abriga países que afrontam totalmente os direitos humanos e possui um processo decisório burocrático e ineficiente. Uma solução mista deve ser buscada, onde a legitimidade possa coexistir com a agilidade e eficiência. A mudança de regimes nos países que representam uma ameaça à paz é mais complexa do que parece, pois não pode simplesmente ser imposta de fora para dentro. Punições externas sempre serão menos eficazes do que mudar a natureza subjacente do regime. Por este prisma, a derrubada dos regimes totalitários no Afeganistão e no Iraque fazem sentido somente até certo ponto, pois faltava um plano realista e eficiente para colaborar com estas mudanças mais estruturais. Os regimes não são apenas instituições formais e estruturas de autoridade. E como a guerra deixou claro, todo o poder bélico americano não parece adequado para enfrentar uma insurreição prolongada. A queda dos países comunistas, especialmente da União Soviética, criou uma sensação de complacência, no sentido de que alterar a natureza de regimes perversos seria mais fácil do que é na realidade. Vários fatores peculiares explicam a derrocada da URSS, e isto sugere que as transformações explosivas do tipo que vimos no mundo comunista constituem provavelmente exceções, e não a regra. Sem dúvida que a clareza moral de Reagan contribuiu para a queda do comunismo, assim como o aumento do orçamento militar americano. Mas existiram muitas outras causas, algumas profundamente arraigadas na natureza do sistema soviético. O sucesso da implosão relativamente rápida do comunismo gerou um clima de euforia, e os conservadores passaram a acreditar que o mesmo iria se repetir no Oriente Médio. Além disso, para Fukuyama, os ocidentais não estão combatendo a religião islâmica nem seus fiéis, “mas uma ideologia radical que tem apelo para uma distinta minoria de muçulmanos”. Esta ideologia atrai os mesmos indivíduos alienados que em outros tempos teriam gravitado para o comunismo ou o fascismo. As pessoas mais perigosas não seriam então os muçulmanos piedosos do Oriente Médio, e sim os jovens alienados e deslocados que vivem no próprio Ocidente e que, como os marxistas e fascistas antes deles, vêem a ideologia como a resposta para sua busca pessoal por identidade. Impor uma democracia nos países muçulmanos não irá alterar este quadro no curto prazo. Os meios pelos quais os Estados Unidos devem combater estes problemas podem – e devem – ser questionados. Sem dúvida há muito o que melhorar. Mas ignorar que o país, no passado, distribuiu bens públicos globais, ainda que focando nos próprios interesses, é injusto. A transformação do Japão e da Alemanha em democracias prósperas e aliadas após a Segunda Guerra, o apoio americano às instituições de Bretton Woods e à Organização das Nações Unidas nos anos 1940, o Plano Marshall, a luta na Guerra Fria, a intervenção nos Bálcãs, tudo isso foi benéfico para o mundo, ainda que servindo aos interesses americanos. Nada impede que o mesmo princípio seja posto em prática novamente, e que os Estados Unidos, lutando pela salvaguarda dos seus interesses, faça um bem enorme ao mundo, combatendo o problema do terrorismo e dos estados falidos que representam o “eixo do mal”. O livro de Fukuyama trata desses dilemas. Segundo o autor, “a guerra no Iraque expôs os limites da hegemonia benevolente dos Estados Unidos”, mas “ela também expôs os limites das instituições internacionais existentes, particularmente a ONU”. A principal tarefa para a próxima geração será a “criação de novas instituições que equilibrem melhor os requisitos de legitimidade e eficácia”. Entretanto, um fato está fora de questão: “O poder americano continua sendo essencial para a ordem mundial”. Vamos torcer para que ele seja utilizado da forma mais inteligente possível. Os que defendem a paz e a liberdade agradecem.

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