O duopólio e o partido único

Estou de novo num aeroporto.

Outro dia fui impedido de resgatar milhas, hoje estou numa espera sem justificativa. Impotente, faço como todo brocha: reflito ansioso sobre a situação. Não posso deixar de pensar na Varig e no duopólio.

Pois até no monoteísmo, quando só há um Deus, ele é uma Santíssima Trindade e tem uma Virgem Mãe. Tudo a ver com o momento político, já que todo monismo acaba em pluralismo. Finda a eleição que juntou, recomeça o sofrimento do cidadão frente aos velhos problemas que fragmentam. Mas há coerência. Pois, se a promessa é governar para os esfaimados, quem anda de avião é um faminto pagante, o que, convenhamos, não deixa de ser uma versão brilhante do socialismo à brasileira. Seguindo o axioma de Marta Suplicy: relaxo e gozo quando, em pleno vôo, e, tangido pela fome dos pobres de Deus, devoro barrinhas de cereal e nanosanduíches de fudele de peru com creme de barbear.

Num país onde somente agora, em pleno século 21, se tenta excluir bandidos dos cargos eleitorais e que começa a ficar incomodado com o fato de os poderosos não terem que seguir a lei e a desconfiar que reclamar é um direito, e não falta de educação, admito que há progresso. Comportome, pois, como o anticidadão que sempre fui. Escrevo e, no silêncio que mata, entendo qual é o meu lugar! No Brasil, o antiliberalismo inventou “partidos democráticos” cujo objetivo era o de destruir as outras agremiações que, por sobrevivência ou malandragem, deveriam integrar o grande rio ideológico capaz de não só promover o progresso, mas de resolver (eis a nossa concepção hierárquica de democracia liberal!) — e de resolver de uma vez por todas! — os grandes problemas com magníficas reformas de base. Na reinvenção do liberalismo, toldamos a liberdade dos outros.

Um desses partidos está no poder. E, se o poder destrói os inimigos, ele cria a arrogância que desmascara os amigos.

Com isso, aquele partido ideológico exemplar, que não roubava nem deixava roubar, tornou-se um vasto pântano e pariu um líder nacional personalista e tragicômico. Um grande guia que, com um excepcional populismo popular, subverteu a obsessão monista de sua agremiação, cujo alvo era defender os interesses dos pobres e famintos.

No poder, a ilha vira continente. Tal como o Plano Real acabou com a inflação das múltiplas moedas, na esfera política o partido dominante transformou seu líder no principio exclusivo do poder.

Não se diz tudo numa crônica. Mas pode-se apontar as transformações não previstas pelo monismo petista. De cara, o enorme papel do cara. Depois o fracasso da ejaculação precoce do ex-capitão do time, o notório Zé Dirceu, ato que liquidou a liderança ideológica e simultaneamente promoveu, com o sucesso do Plano Real e das medidas macroeconômicas que eram a herança maldita do governo tucano, um dinamismo inusitado do consumo com suas contradições e polifonias. Surge então uma dualidade curiosa: os aliados de modernização, como o PSDB, passam a ser inimigos mortais; e os velhos reacionários — os coronéis dos grotões — tornam-se amigos do coração.

Essas reviravoltas permitiram ao guia escolher e eleger um sucessor feminino virgem do PT e de disputa eleitoral. Algo inusitado numa terra onde, como dizia um dos aliados de Lula, expulso da presidência por corrupção, seria preciso ter “aquilo roxo” para governar.

No campo do transporte aéreo sucedeu algo semelhante. Uma companhia que dominava e era um símbolo nacional foi liquidada. O que era um, virou dois e agora há o orgulho de se viver num momento mágico no qual tudo cabe, inclusive a destruição de uma empresa que recebeu como um estertor o fundo de pensão dos seus trabalhadores logo usurpado pelo governo.

Com o fim do monopólio aéreo, ninguém mais sofre, exceto os passageiros sujeitos a duas empresas que podem escusar o respeito que o ardiloso capitalismo liberal exige de quem paga. Se sou contra isso? Se escrevo por mágoa porque uma das maiores vilezas do governo Lula foi, além do mensalão, liquidar a Varig que com ela levou meu filho para o cemitério, a resposta direta é um claro, doloroso e sincero SIM! No plano geral, vale chamar atenção de como um projeto de poder à stalinista, acabou por promover mais capitalismo e mais liberalismo. Muito mais do que nos oito anos de FHC. Pela mesma lógica, o partido da justiça social liquidou uma enorme empresa sem pensar nos seus trabalhadores. Mas o sucesso da eleição de Dilma abala inesperadamente a tese do “salvador carismático da pátria”, pois a imagem da mãe está muito mais próxima do liberalismo que se abre a si mesmo, recriando-se diariamente, do que dos velhos autoritarismos que não suportam diferenças.

No plano pessoal, o da tal crônica clássica, porém leve e um tanto carnavalesca, que, dizem os entendidos, é um achado brasileiro, eu confesso que o duopólio aéreo simboliza a morte do meu filho mais velho. Para ficar no que pode ser dito, ele traz de volta o sofrimento e o desejo humano de restituição, que só vai terminar quando eu morrer. Não posso ter meu filho de volta, mas posso sublimar a experiência dolorosa de sua perda chamando atenção para a enorme traição feita com a Varig. Falo com viés, tomo partido. E por que não se isso foi a única coisa que aprendi com o PT e com o Lula? Mas com uma diferença fundamental: a morte do meu filho não tem dois pesos e duas medidas, como tudo neste governo, que, felizmente, está também indo embora.

Com o fim do monopólio aéreo, ninguém mais sofre, exceto os passageiros

Fonte: O GLOBO, 10/11/2010

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