O efeito Dilma sobre o próximo meio século

Até hoje, achava eu, equivocadamente, que a vitória de Dilma abriria um novo ciclo no Brasil, pós-Lula. FHC inaugurou o ciclo anterior, representando o presidente moeda, ao coordenar magistralmente a equipe que domou a inflação. Lula deu prosseguimento ao ciclo e nos devolveu a renda e o crédito, recriando uma classe média que se pensava morta. O ciclo do resgate econômico estaria, então, completo, pensava eu. Mas vejo, agora, que ainda não.

O que vem por aí será a etapa final da contribuição da “geração de 68”. A militância política da presidente eleita, desde os idos da década de 1960, tem sido ressaltada na TV como parte do currículo de Dilma Rousseff, lembrando o episódio da tortura da presidente pelo regime militar então instalado no país. A própria Dilma afirma ter sido “brutalmente torturada”. Como nada justifica o crime da tortura, falar abertamente sobre essa página repugnante da história é bom para purgar o pecado coletivo da nossa sociedade. A “geração de 68”, uma juventude generosa e voluntariosa, não quis esperar o fim do regime militar. Aqui e no exterior, muitos confrontaram o establishment social e político, como na Marcha dos Cem Mil, em 1968, no Rio de Janeiro, ou em Paris, ou em Woodstock, nos EUA. Sempre de modos e jeitos diferentes, mas sempre a mesma coisa.

Após um rápido intervalo de cortina, como numa peça de teatro ao vivo, é essa “geração de 68” que reaparece em nossa história atual, com Serra, FHC e Cesar Maia – exilados no Chile –, ou com Dilma, Dirceu e Gabeira, com Lula e tantos outros, da mesma turma de perseguidos ou banidos pelo antigo regime. Os então excluídos foram mais do que resgatados: foram reintegrados e alçados, pelo poder democrático do voto, aos mais altos postos da República. O Brasil deu a volta em sua própria história e devolveu aos melhores e mais bravos da geração de 68 seu mais amplo direito de participação. Por isso mesmo, Dilma ainda não pertence a um ciclo novo, mas ao atual, que ela terá a honra de encerrar.

É enorme a responsabilidade da presidente eleita, encarregada de completar a obra de 68. As decisões que Dilma tomará repercutirão intensamente nos 50 anos à frente, na vida inteira de praticamente todos os quase 190 milhões de brasileiros vivos nesta data. Para ter ideia do que é meio século em matéria econômica e tributária, em importância sobre nossa vida diária, basta recordar que vivemos dos benefícios residuais da estrutura modernizadora (para a época, bem entendido) deixada pronta, em 1967, pela equipe de Roberto Campos e Octavio Bulhões, gigantes de uma geração precedente, de que faz parte o brilhante professor Delfim Netto (leia a entrevista). Fazendo as contas: se Dilma for reeleita, até 2018 meio século terá se passado desde que a “geração de 68” começou a atuar politicamente.

Ela prometeu reduzir e simplificar impostos. Precisamos também controlar gastos públicos

O produto líquido dessa geração de 68 terá nas intenções programáticas de Dilma sua última cartada coletiva. A ela caberá não mais consertar a moeda (já que FHC devolveu respeito ao dinheiro e confiabilidade aos preços), nem aprumar a autoestima do povo (já que Lula, um gigante da política brasileira, promoveu uma segunda e enorme rodada de redução da pobreza e inclusão econômica). Mas ela tem pela frente o desafio de substituir a máquina velha e desgastada das instituições econômicas que hoje emperram nossa vida pública e privada. Não basta o que Dilma já prometeu, que não é pouco: simplificar e desonerar a tributação no Brasil. É urgente alcançar bem mais do que isso, pois é de uma nova estrutura tributária e produtiva, e de controle eficiente dos gastos públicos, que estamos precisando para virar, afinal, país desenvolvido.

A conclusão é que não faltará bravura aos melhores de uma geração que um dia enfrentou paus de arara. A dúvida, como diria Calvino, é se não nos faltarão, entretanto, leveza, rapidez e exatidão, como prescrevia o literato, nas transformações requeridas neste novo milênio.

Publicado na Revista “Época”

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17 comments

  1. Rui Moceiro

    Falta agora o senhor escrever um artigo elogiando o Chávez e também os irmãos Castro.

  2. Henrique Garcia

    Por um momento pensei que estivesse lendo, acidentalmente, o site do PSTU. Deixo aqui consignada a minha indignação à editoria do Instituto.

  3. Anderson Fortaleza

    Pessoal, avisem ao Paulo Rabello que hackearam o site do Millenium e colocaram um artigo de propaganda comunista assinado com o nome dele !

  4. Judith Kerr Steinhoff

    O Instituto Millenium deu de fazer propaganda do PT agora? Ficar chamando o bêbado comunista de “gigante”, simplesmente porque ele manteve a política econômica do antecessor, não cai bem.

  5. Luciano

    A horda de puxa-sacos já começa a babar seus panegíricos com aquela gradiloquência asquerosa…

  6. Desde quando “HERANÇA DE 68” presta para alguma outra coisa além de contra-exemplo para o que quer que seja?

    Mudem a cor laranja no site para vermelho ou rosado logo!

  7. Márcio Santana

    Texto lixo! Esse site tá cada vez pior.

  8. Texto realmente estranho para o site do Millenium. Chamar o bêbado, boquirroto e autoritário do Lula de gigante da política é realmente demais. O que o lulismo trouxe de bom para o país? Nunca se viu tanta mediocridade, corrupção e autoritarismo. Isso é gigantismo?
    Devo dizer ao IM: Que é isso, companheiros?

  9. Estranhíssimo texto. Alguém desavisado, poderá entender que o sr. Paulo Rabelo deva ter sido sequestrado (Franklin Martins?) e o pagamento é tecer elogios à guerrilheira e seu chefete.

    Lamentável…

  10. Justissimo

    Com vistas a amontoar o vil metal e angariar o prestígio de festim, o bruto está certíssimo: por certo a adulação fomenta-lhe a renda!

  11. Arnaldo

    Esse cara está no lugar errado, devia escrever no site do PT.

  12. Marcio

    Alguém tire essa cara daí, antes de acabar de vez com a credibilidade do Milenium!
    Ou então façam uma fusão com a carta capital.

  13. Virginia

    Tenho certeza que nao falta espaço para idéias Paz e Amor, politicamente corretas e outras baboseiras mais.
    Precisamos ler e fazer críticas duras, relevantes e que realmente aponte para o melhor caminho.
    E, como melhor caminho eu falo daquele que nao admite compadrios, mentiras sobre qualquer numero economico ou revelador de desenvolvimento ou atraso do país.
    Está extremamente difícil neste país, encontrar alguem que tenha coragem de criticar e mostrar claramente a razao das críticas sem se importar com o grau da autoridade que está criticando.
    É lamentável achar que no Brasil náo deve haver confrontos de idéias.

  14. André Costa

    Que lixo! Até tu Brutus? Isso é que é coo-pt-ação…

  15. Julio Prático

    ” Alguém tire essa cara daí, antes de acabar de vez com a credibilidade do Milenium! Ou então façam uma fusão com a carta capital.”

    Esse é o tipo de mentalidade autoritária que me faz admirar quem luta para libertar um país disso. Se alguém aqui está do lado de Stalin, são as pessoas que fomentam esse tipo de opinião, na verdade eles são é ‘CONTRA-OPINIÃO’. Se esse tipo de gente está contra a Dilma, VIVA a Dilma!

  16. Mario Abreu

    CARAMBA! TÁ MALUCO CARA ! O DR. BULHÕES E O ROBERTO CAMPOS ESTÁ INDIGNADOS QUERENDO SAIR DA TUMBA PARA TE DAR BOAS PALMADAS… QUEM TE VIU E QUEM TE VE …
    AGORA NA COMPANHIA DO PELEGO MOR DA TRAMPOLINAGEM NACIONAL. NÃO VA. SOBRAR NADA PARA VOCE JÁ QUE A CURRIOLA DO pt EXIGE TESTE DE FIDELIDADE PARA ENTRAR NO CIRCO. PERDEU O RUMO, CARA. QUEM SABE O FIDEL CASTRO LHE DA UM EMPREGO PARA FAZER AS “REFORMAS” EM CUBA. FAÇA UM ARTIGO BABANDO O OVO DO ASSASSINO RAUL CASTRO.

  17. Diego Almeida

    Suprimiram meu comentário de ontem… eiê… o cara bajula e depois não aguenta a crítica!!! se ajoelha logo, ô Paulo Rabello!!! Se renda logo! Se alie, ora mais! E silencie-se!