Há um sagrado direito à rebelião contra a tirania, quando o poder constituído deixa de representar a verdade da alma de uma nação. Essa é a ciência política mais pura e o saber superior que vem desde a época de Platão. Será isso que está a ocorrer no Irã? Temo que não. O que estamos a ver naquele país é a velha disputa de facções que querem manter a mesma ordem estabelecida. Nada separa Mousavi de Ahmadinejad, exceto estarem à frente de facões que se digladiam pelo poder. Não querem mudar a ordem teocrática ali constituída, em que aiatolá Ali Khamenei exerce, na prática, o papel de um imperador. É dele o poder supremo, inclusive aquele de legitimar o governante eleito.

É bem verdade que a Constituição iraniana prevê eleições periódicas, em concessão ao modelo de instituições ocidentais. Isso, todavia, é mera caricatura, não é para valer. Os nomes permitidos ao escrutínio são cuidadosamente escolhidos e as apurações são feitas sempre sob as sombras, ao arrepio de qualquer observador isento. Na verdade, é o clero quem escolhe e sanciona o ganhador. É ele a fonte real de poder, não o voto popular.

A surpresa foi que o candidato rejeitado desta vez não se conformou com o resultado e agora insufla a multidão, transformando Teerã em campo de batalhas das facções mobilizadas. Depois do pronunciamento final de Khamenei, legitimando o ganhador Ahmadinejad, não há mais espaço algum para modificação do resultado no plano do poder político estabelecido. Somente uma sangrenta rebelião poderia, e ainda assim de forma incerta, reverter o resultado. Em uma ordem teocrática o líder religioso não pode ter sua decisão contestada. A insistência de Mousavi de manter a mobilização de seus acólitos é uma afronta não meramente ao resultado eleitoral, mas ao próprio sistema de poder estabelecido.

Vejo com muita preocupação o desenrolar dos acontecimentos. As instituições iranianas não estão preparadas para administrar de forma pacífica um conflito dessa natureza. Mais me preocupa que ambos os lados não tomam decisões definitivas e a anarquia parece sair do controle. Energias poderosas estão sendo liberadas e uma explosão poderá causar um morticínio de largas proporções.

Ou Mousavi tem poder político-militar para confrontar o sistema e levará sua demanda até o fim, desencadeando uma terrível guerra civil, ou não tem e está provocando, de maneira leviana, a ordem estabelecida. Por outro lado, percebo em Khamenei uma hesitação que eu não suspeitava ele ter, o que pode indicar fraturas na estrutura do poder teocrático. Khamenei será obrigado, a qualquer momento, a esmagar a sublevação da ordem e não terá outra escolha que não sacrificar os líderes do levante, inclusive Mousavi.

Penso ser inútil aplicar os paradigmas ocidentais, onde vigoram sociedade abertas e acostumadas à alternância pacífica de poder pela via eleitoral, ao Irã dos aiatolás. Pura tolice. O Irã é uma sociedade de psicologia tribal, onde o Corão é a fonte e o sustentáculo da ordem civil. A rebelião de Mousavi não é uma é uma tentativa de mudar o sistema, logo não poderá ter a representação espiritual do povo iraniano, que já está depositada em Khamenei. O presidente que se elege é um mero gerente ou delegado dos teocratas. A rebelião liderada pelo candidato derrotado não tem futuro, mas pode trazer conseqüências nefastas para o mundo todo, e não apenas para o Irã. Uma guerra civil nós bem sabemos como começa, mas nunca como ela acaba. Riscar o fósforo naquele barril de pólvora poderá liberar energias destrutivas de largas proporções, envolvendo os países vizinhos e mesmo as superpotências. Um grande perigo.

É difícil fazer qualquer prognóstico no momento. Eu apenas torço para que a rebelião termine e que o poder constituído deixe de ser contestado. Melhor uma ordem injusta e tirânica do que a anarquia. Quem viver verá.

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