“There is no freedom from risk; there is no freedom from fear; there is no freedom from pain; there is no freedom from the possibility of failure; but there is freedom in the acceptance of all of these as part of life, and moreover, as the least important part of life.” (1)
    (Victor Sperandeo)

Em toda nossa vida fazemos escolhas entre dois valores fundamentais: a liberdade e a segurança. Em quase todo o tempo, eles são excludentes: compramos um carro melhor, que nos dá maior conforto, ou um menor, que é menos visado pelos assaltantes. Escolhemos um emprego que nos dá maior segurança ou aquele que, apesar dos riscos, dá melhores perspectivas de crescimento.

Em nossa infância, não há essa escolha: a pessoa não é livre porque não tem maturidade suficiente para decidir o que é melhor para si. Por isso, até que atinja a idade em que será considerada legalmente maior, as decisões devem ser tomadas por seus pais. Não há liberdade, mas, em compensação, também não há responsabilidade. Qualquer conseqüência das decisões vai recair sobre aqueles que a tomaram: os pais.

Pode-se pensar que esse é o melhor dos mundos: ser beneficiário das decisões dos outros e não arcar com as conseqüências de seus erros. Porém, para todas as pessoas, mesmo para as crianças, a liberdade é fundamental para o bem-estar. Ter alguém decidindo a cada momento o que devemos fazer transforma nossa vida em um objeto de segunda mão, ou seja, a realidade passa a ser percebida pelos outros e não por nós. Desconhecemos nossas necessidades, que são freqüentemente desprezadas em favor da opinião alheia.

Obviamente, essa situação nos traz muita frustração e ansiedade. Frustração, porque nossa felicidade é colocada em segundo plano em nome dos desejos dos outros. Ansiedade, porque estamos a todo o momento a mercê de um poder imprevisível e arbitrário. A infância, idade onde esses sentimentos costumam ser companheiros diuturnos, definitivamente não é aquele paraíso idílico que nós somos induzidos a acreditar.

Pois bem. Todos acabamos por crescer. E a maioridade implica necessariamente em viver por si mesmo, tanto intelectualmente quanto materialmente. Essa responsabilidade é árdua, pois cessam o conforto e a segurança. Tudo deve ser assumido por nós, inclusive as conseqüências de nossos piores erros, que fatalmente acontecerão. Se não fizermos nada, nada ocorrerá. Aliás, algo acontecerá: nosso inevitável perecimento, pois nem a água nem a comida chegarão automaticamente às nossas bocas.

Apesar de tudo isso, a liberdade continua sendo o maior bem do ser humano: optando entre duas ou mais alternativas descobrimos o que nos leva à felicidade. Se não pudermos escolher nunca saberemos. E a felicidade, finalidade última de todo ser humano, é absolutamente individual: cada um deve descobrir seu próprio meio de atingi-la. Cada indivíduo é único e, por isso, se diz que há seis bilhões de formas de ser feliz. Descobrir o seu caminho, trilhá-lo e alcançá-lo é a maior fonte de felicidade de todo ser humano.

Infelizmente, entre a segurança e a liberdade, a imensa maioria das pessoas escolhe a primeira opção. A responsabilidade pela própria vida parece ser um fardo pesado demais.

Inicialmente, se tornam intelectualmente irresponsáveis: suas crenças passam a serem determinadas por outras pessoas e para outras pessoas. Acredita-se no que for mais conveniente para a sociedade. A pessoa abdica de analisar por si própria a vida e passa a vê-la apenas de segunda mão: correto é aquilo que os outros dizem que é. Não é preciso nenhum raciocínio crítico, pode-se “papagaiar” qualquer coisa que se ouve desde que se considere aceitável em uma roda social. Hoje todos se sentem preparados para opinar a respeito de qualquer coisa, mesmo que nunca tenham estudado a respeito!

Como conseqüência natural, a maioria das pessoas também não quer se responsabilizar pelo que faz. Já que as crenças são retiradas de outros, a responsabilidade também pode ser debitada aos “outros”.

Essas pessoas se sentem profundamente indignas: têm sérias dúvidas sobre seu valor e qualquer revés pode destruir sua frágil auto-estima. É sintomático que o ordenamento jurídico reconheça as ofensas contra a honra como crimes, independente de qualquer prejuízo material: reconhecemos nossa fragilidade psíquica e o poder que os outros têm sobre nós (2).

Se a maioria das pessoas se sente incapaz de resolver seus problemas, só restam duas opções: a resignação e o auxílio dos mais fortes. A resignação significa o inevitável perecimento, a nível intelectual quanto material. Só resta o auxílio dos mais fortes, que, substituindo a figura dos pais, resolveriam todos nossos problemas.

Os mais fortes são todos aqueles que, conhecedores de seu valor intrínseco, produzem bens ou idéias, modificam a natureza e desenvolvem o mundo.

Intelectualmente, esse auxílio é facilmente obtido: a pessoa escolhe, de modo mais ou menos aleatório, quais são as idéias em circulação que mais se conformam com seu estilo de vida. Não é preciso pensar, basta se adequar.

Em termos materiais, a situação se torna mais complexa: as pessoas que contam com maior patrimônio dificilmente seriam convencidas a abrir mão dele em proveito de desconhecidos.

Para resolver esse imbróglio, atua o Estado: compulsoriamente retira parte do patrimônio das pessoas por meio dos impostos. E, como todo pai que se preze, utiliza esses recursos para resolver os problemas de seus “filhos”.

    (1). “Não há liberdade do risco; não há liberdade do medo; não há liberdade da dor; não há liberdade da possibilidade de fracasso; mas há liberdade na aceitação de tudo isso como parte da vida; e mais ainda, como a parte mais importante da vida.” (tradução livre)

    (2). Especialmente marcante é o crime de injúria, previsto no art. 140 do Código Penal: pune-se a ofensa à honra subjetiva, ou seja, à imagem que a pessoa tem de si mesma. A lei admite que uma simples xingação tem o poder de nos lesar, ou seja, que nosso bem-estar depende do que os outros falarem a nosso respeito, mesmo que seja só para nós mesmos.

(continua…)

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