Velho fantasma do choque de petróleo voltou a assustar a economia mundial nas últimas semanas pela lembrança de um passado em que demanda em rápido crescimento com oferta estrangulada por crises no Oriente Médio gerou 10 das 12 recessões do pós-guerra.

É inevitável que se considere outro impacto semelhante. Mas temos que analisar o que é mudança conjuntural do que é estrutural no petróleo nos últimos anos.

Os desdobramentos da crise deflagrada no Egito e que se espalha por outros países do Oriente Médio é absolutamente imprevisível nesse momento. Ela traz o componente de choque que, se durar muito para ser resolvido, pode trazer consequências graves ao redor do mundo.

Na pior das hipóteses, uma crise mais intensa pode levar ao desaquecimento mais acelerado dos emergentes e a uma demora maior para os desenvolvidos voltar a crescer.

É interessante notar que, dessa vez, um choque de petróleo poderia ser mais prejudicial para países emergentes importadores do que os desenvolvidos, ao contrário do que se via no passado.

Mas não é o efeito conjuntural da crise no Oriente Médio que mais importa agora. A questão de fundo é saber se os preços do petróleo continuarão em patamar elevado nos próximos anos, e a resposta provavelmente é sim.

Primeiro, China e Índia, por si só, já representarão quase todo o adicional demandado nos próximos anos e não é pouca coisa. Segundo, não há concordância sobre se ter chegado ou não ao pico de produção de petróleo no mundo. De certa forma, a produção tradicional onshore parece estar se esgotando, como se vê no Oriente Médio e grandes produtores como México e Venezuela.

Muito disso se deu por conta de falta de investimentos até a década de 90. Afinal, depois do choque de petróleo de 1979, os preços ficaram em níveis tão baixos que desestimularam a descoberta de novos poços.

Também parte dos países produtores, como os dois da América Latina, possuem interferência estatal de produção que prejudicou novos investimentos.

De qualquer maneira, as novas descobertas, que parecem ser de onde virá o grosso do novo petróleo, se encontram offshore e em grandes profundidades em geral e nas areias betuminosas do Canadá. Dois tipos de oferta de petróleo extremamente caros e cuja tecnologia ainda engatinha. Isso tudo parece indicar uma década de petróleo caro ainda.

Onde fica o Brasil nessa história? No curto prazo, a consequência é negativa para a inflação, mas não tanto. O impacto seria maior se houvesse aumento em todas as commodities que pudessem afetar os preços no atacado.

O impacto apenas em petróleo poderia ser diluído ao longo da cadeia, ainda mais considerando que a Petrobras parece descartar aumentos no preço da gasolina. No longo prazo, ajuda a Petrobras, porque cria condições de preço para que seus investimentos se viabilizem mais rapidamente.

Nesse novo mundo, petróleo em elevação poderia ser positivo no longo prazo para o país, com consequências moderadas de curto prazo, o oposto dos impactos que esses choques causavam no Brasil.

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