O fascínio da reserva de valor sobre os investidores

O ouro sempre exerceu forte atração nos homens. “Quem possui ouro possui um tesouro capaz de elevar as almas ao paraíso”, teria dito Colombo ao chegar à América. Em inúmeras sociedades ao longo dos milênios, o ouro tem sido objeto de grande desejo. Sua beleza intrínseca, reluzente como o sol, explica em parte esse fascínio. Mas há também uma justificativa mais técnica para a demanda pelo metal dourado.

Algumas características tornam o ouro peculiar como escolha para meio de troca e reserva de valor. Sua oferta limitada, sua portabilidade, sua divisibilidade, sua homogeneidade e sua durabilidade. Tais qualidades sempre fizeram do ouro uma escolha natural do mercado e também um inimigo implacável dos governos perdulários. Afinal, o governo que deseja gastar mais do que arrecada não gosta da ideia de uma moeda escassa e independente de seu poder. O sonho de todo governante populista é contar apenas com o toner das impressoras da Casa da Moeda como lastro para a emissão de dinheiro.

Alan Greenspan, quando ainda estava longe do poder sedutor do Federal Reserve, compreendia isso muito bem. Em 1967 ele escreveu o artigo “Gold and Economic Freedom”, concluindo que o “ouro e a liberdade econômica são inseparáveis”. Para ele, o padrão-ouro era incompatível com o déficit crônico nos gastos governamentais, que seria apenas uma forma disfarçada de confiscar dinheiro do povo. O déficit do governo fica limitado sob o padrão-ouro porque a lei de oferta e demanda não pode ser cunhada e o governo não dispõe da inflação como mecanismo de imposto velado.

Por isso, os defensores de mais gastos públicos sem lastro sempre condenaram o ouro. O caso mais extremo nos Estados Unidos ocorreu durante o governo Roosevelt. O país vivia sob o padrão-ouro e isso limitava os poderes do governo. Roosevelt pediu, então, ao secretário do Tesouro para exigir que os americanos vendessem o que tivessem de ouro para o Tesouro em troca de dólares. A posse do metal ou sua exportação passaram a ser ilegais. Essa medida representava a saída do padrão-ouro na prática. O presidente afirmou que tal medida seria temporária, mas poucas coisas duram mais do que medidas temporárias de governos.

Em seguida, Roosevelt trabalhou para invalidar as cláusulas de ouro nos contratos privados, que funcionavam como forma de proteção dos credores. O ouro sofria um duro ataque do governo, ansioso por gastar além dos seus limites para tentar estimular a economia. Na prática, isso transferia riqueza dos poupadores para os devedores.

Governos autoritários costumam atacar o ouro de forma ainda mais direta. Foi o caso de Kublai Khan, neto de Gengis Khan. Marco Polo permaneceu a serviço do líder mongol por anos. Seus relatos são esclarecedores. Sempre que comerciantes entravam em seus domínios com pérolas, pedras preciosas, ouro ou prata, eram todos instados a ceder todo o seu tesouro para o Grande Khan, em troca de papel-moeda. O poder de persuasão do líder para garantir a confiança em sua moeda foi explicado pelo próprio Marco Polo ao afirmar que “ninguém ousa recusá-lo sob pena de perder a vida”. E assim, o Khan tinha realmente dominado a arte da alquimia, ao menos dentro dos seus domínios.

O ouro funciona razoavelmente bem como reserva de valor durante governos irresponsáveis. Entre 1968 e 1980, o ouro se valorizou cerca de 30% ao ano nos Estados Unidos. Em “O Poder do Ouro”, Peter Bernstein afirma que o metal “pode voltar a servir como o hedge por excelência em situações caóticas”. Ele considera que seu retorno ao papel tradicional de dinheiro universal é improvável, “a menos que chegue um momento em que o dólar, o euro e o iene deixem de ser um meio aceitável de pagamento nas transações internacionais”. Esse não parece ser o cenário atual ainda. Mas é inegável que o mundo está entrando numa fase de governos mais gastadores. Quando temos um concurso de feiúra, onde cada governo luta para ser o mais irresponsável nos gastos, o ouro normalmente se sai bem.

E de fato, ele tem sido uma excelente proteção para os investidores. Abaixo dos US$ 300 no começo da década, a onça de ouro está valendo quase US$ 1.000 agora, seu máximo patamar histórico. Até quando o seu “bull market” irá durar, ninguém sabe. Depende da magnitude da inflação produzida pelos principais governos do mundo. Até lá, espera-se apenas que nenhum governo resolva decretar guerra ao metal, que por tantos séculos tem ajudado a preservar as poupanças em tempos de crise econômica.

(Valor Econômico – 17/02/2009)

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