Um argumento que volta e meia se ouvia enquanto o Brasil lutava para assegurar a estabilidade da moeda nos momentos seguintes à implantação do Plano Real era o de que o país estava conseguindo levar ordem para a economia sob condições menos favoráveis do que outros.

Afinal, o fato de viver sob uma democracia (o que implica conviver com todas as demandas sociais e políticas naturais desse regime) dificultava a adoção de reformas profundas.

Por aquela visão, as ditaduras teriam mais condições de organizar o mercado pelo simples fato de não ter que prestar contas à sociedade.

O exemplo mais citado naquele momento era o da ditadura Pinochet, que havia organizado a economia do Chile enquanto mantinha o país sob intenso terror. Visto com o devido distanciamento histórico, esse tipo de raciocínio mostra-se cada vez mais distante da realidade.

A economia brasileira não evoluiu “apesar” da democracia. Evoluiu, pelo contrário, justamente porque o país vivia uma democracia; e, nas democracias, ou se faz aquilo que a sociedade deseja ou se está fora da cena política.

Ao contrário do que se imaginava no passado, hoje é possível afirmar que não existe prosperidade fora do ambiente democrático – que é o único regime em que os governantes, que de tempos em tempos são julgados pela sociedade, precisam se preocupar permanentemente com a geração e com a distribuição da riqueza, entre outras conquistas sociais.

Esse detalhe torna-se ainda mais interessante quando se observa os momentos derradeiros da ditadura de Muammar Kadafi, na Líbia. É o país com o maior Índice de Desenvolvimento Humano do continente africano (o IDH da Líbia é 7,55) e o único em que o ditador utilizou parte dos recursos gerados pelo petróleo para investir em educação e saúde.

Mesmo assim, o que foi distribuído para essa finalidade era pouco e, pior do que isso, insuficiente para conter a insatisfação crescente. Cada atrocidade que o ditador comete com a intenção de se manter no poder deixa mais claro que o mundo já não aceita mais a tirania, tenha ela a ideologia, a religião ou a raiz que tiver.

E que a evolução para a democracia, além da nobreza de sua motivação política, é o que abrirá as portas daqueles países para uma era de bem-estar e de paz. Da qual o mundo inteiro se beneficiará.

Fonte: Brasil Econômico, 28/02/2011

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1 comment

  1. Rodrigo Pinto

    Infelizmente tenho que discordar dos argumentos do artigo. Ainda que o regime democratico seja socialmente desejavel, ele nao e’ condicao necessaria ao crescimento economico. Alguns exemplos que refutam a tese do artigo sao o milagre economico brasiliero e a recente abertura economica da China.