O fim do modelo cubano?

O repórter Jeffrey Goldberg, da revista “The Atlantic”, contou que estava sentado à mesa de almoço com Fidel – após uma entrevista de quase três horas de duração – quando resolveu perguntar se “o modelo cubano ainda era digno de exportação”. El Coma Andante teria respondido: “O modelo cubano não funciona nem mais para nós”.

Não obstante a piada de mau gosto – como se alguma vez o modelo cubano tivesse funcionado para quem quer que fosse – devemos celebrar a confissão do ditador. Recentemente, após uma fase recluso tratando (com médicos estrangeiros) sua doença, Fidel Castro voltou à cena política cubana para fazer declarações interessantes. A primeira delas foi um mea culpa sobre a homofobia na ilha-presídio, que seria responsabilidade do tirano socialista. E agora Fidel afirma que o modelo cubano não funciona mais.

Só falta um gesto de nobreza final agora: abolir a mais velha e cruel ditadura da América Latina, prender seu irmão e toda a cúpula do poder, e depois tirar a própria vida num último ato. Não apagaria seu currículo sanguinário, naturalmente. Mas talvez fizesse as pessoas decentes sentirem alguma pena dele, algo que ainda está muito longe de acontecer.

No fundo, sabendo de quem vem, devemos desconfiar das reais intenções destas declarações. Seria pragmatismo para tentar flexibilizar um pouco o regime e assim permitir a manutenção de seu irmão no poder após sua morte? Pode ser que sim. Afinal, o futuro de Cuba depois que o capeta se for é bastante incerto. Até mesmo uma guerra civil não parece fora de questão. Fidel poderia estar de olho nisso, tentando fazer concessões para preservar a dinastia familiar. Os senhores feudais costumavam fazer isso.

Ainda assim, trata-se de um fato incrível: o ditador, ícone máximo do socialismo, ídolo de uma geração de perfeitos idiotas úteis, assume que o modelo faliu. Alguém precisa avisar logo aos brasileiros desta “novidade”. Aqui ainda tem muita gente que acredita justamente neste modelo cubano, que trouxe apenas miséria e escravidão. E o pior: muitos dos seguidores de Fidel estão no poder! E tentando tomar medidas que aproximem nosso modelo daquele! Será que Marco Aurélio “top top” Garcia escutou o que disse seu guru? O modelo não funciona “mais”. Mesmo assim ele vai insistir em transformar os milhões de brasileiros em cobaias de sua obsessão ideológica? Vai tratar sua patologia num divã e nos deixe em paz!

Aproveito o tema para destacar que nem toda esquerda aplaude vergonhosamente o tal modelo cubano, agora enterrado pelo próprio pai. O livro “Silêncio, Cuba”, da argentina Claudia Hilb, demonstra que há resquícios de honestidade na esquerda ainda. A professora lamenta o silêncio dos intelectuais de esquerda sobre o caráter “autocrático, antilibertário, antidemocrático e repressivo” do regime cubano. Ela mostra como a utopia de construir o “Homem Novo”, livre do egoísmo, da preferência por si mesmo, era indissociável do totalitarismo presente em Cuba. A busca pela igualdade dos resultados sempre levou a regimes ditatoriais. Hilb mostra como o medo despertado em todos foi parte inerente dos ideais revolucionários.

Os cubanos desenvolveram aquilo que eles batizaram de “dupla moral”. De um lado, repetiam os slogans do partido, mantinham as aparências; do outro, aderiam a uma moral subterrânea, aceitavam o roubo de bens públicos como meio de vida, o tráfico no mercado negro, os empreendimentos clandestinos. Para sobreviver no regime cubano, faz-se necessário ignorar certos valores básicos, para não ser um “dissidente”, o que é sempre muito perigoso. Fidel Castro pariu uma nação inteira vítima de dissonância cognitiva. A autora pergunta: “O que resta da liberdade quando a ação pública vê-se reduzida a orientar-se essencialmente pelo medo?”

Hilb derruba também o mito insistente de que há o lado bom do regime cubano, o foco na saúde e educação. Ela lembra que Cuba já desfrutava de índices melhores que a média latino-americana antes da revolução, e que após os subsídios bilionários da ex-URSS, o regime entrou em colapso até nessas áreas. A educação cubana não passa de doutrinação ideológica, e a saúde está em estado precário, com falta de remédios básicos e péssima qualidade dos estabelecimentos hospitalares. Se antes de Fidel a ilha era comparável a Costa Rica – e vencia –, hoje o critério de comparação é o Haiti.

Alguns tentam defender o modelo cubano argumentando que, ao menos, a população média está melhor do que os favelados do Brasil ou Argentina. Mas Hilb sabe que se trata de argumento enganoso. Primeiro, porque não seria justificável defender a ditadura com base nisso, da mesma forma que ninguém defenderia o regime de Pinochet porque os chilenos viviam, na época, melhor do que os favelados cariocas. Segundo, porque, como ela mesmo coloca, “se o único argumento contrário que o defensor do regime que governa Cuba de maneira absoluta há cinqüenta anos encontrasse fosse o de comparar um cubano pobre com o morador de uma favela, nosso contraditor imaginário assinaria a sua capitulação”. A promessa da revolução seria transformada na meta patética de oferecer uma vida “um pouco melhor” do que nas favelas!

Tanto sangue, tanta opressão, tanto medo, para isso? Fidel parece ter assumido que o modelo não funciona “mais”. Demorou “apenas” meio século e dezenas de milhares de vítimas inocentes para perceber isso, se é que não passa de uma tática oportunista (o que é bem mais provável). Agora restam os dinossauros tupiniquins fazerem o mesmo, e abandonarem de uma vez essa utopia assassina chamada socialismo. A verdade precisa ser dita sem rodeios: quem ainda defende o modelo cubano até hoje não tem um pingo de caráter!

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2 comments

  1. Gesto de nobreza? O senhor ja esteve em Cuba ? Está fazendo literatura, feito a Yoani Sanchez que escreve muito bem e se esqueceu do motivo primeiro de seus artigos? E por que o medo de dizer que Pinochet salvou o Chile ? Não quer ser taxado de radical ?