Em 1791, aos 35 anos apenas, morria um artista com talento suficiente para justificar o rótulo de “gênio”. A vida de Wolfgang Amadeus Mozart ilustra a situação de grupos burgueses numa economia dominada pela aristocracia de corte. Como diz Norbert Elias em sua biografia do músico, “Mozart lutou com uma coragem espantosa para se libertar dos aristocratas, seus patronos e senhores”. Um músico daquele tempo não tinha muita escolha, a não ser se submeter a um posto inferior nas cortes. Tal sina não conseguiria prender aquele que escreveu A Flauta Mágica. Havia nitidamente um ressentimento por parte de Mozart com a sociedade de corte, fruto da humilhação imposta pela nobreza, que sempre o tratava como inferior. Por mais que freqüentasse os círculos aristocráticos, ele não cumpria seus rituais, tampouco bajulava os nobres. Seu pai, Leopold, era um serviçal do príncipe-arcebispo de Salzburgo, cargo obtido com muito esforço. Bom músico, mas não excepcional, sonhou através do filho um futuro mais promissor para a família. Deixou claro o objetivo principal do jovem artista, que era fazer dinheiro. Foi bastante exigente com Mozart, assim como controlador. Aos 3 anos, Mozart já aprendia a tocar, e com 5 estava compondo. O talento era impressionante, e aos 6 anos, o menino já fazia sucesso até mesmo com reis e rainhas. Para as ambições pessoais do criador de Don Giovanni, isso não era suficiente. A decisão de Mozart de largar o emprego estável porém degradante, aos seus olhos, em Salzburgo, significava o abandono de um patrono, tendo que ganhar a vida como um “artista autônomo”, vendendo sua obra no mercado livre. Era algo bastante ousado e inusitado na época, cuja estrutura social ainda não oferecia lugar para músicos ilustres e independentes. O risco assumido por Mozart era extraordinário. Ele antecipou as atitudes de um tipo posterior de artista, com confiança acima de tudo na inspiração individual. Tal rompimento com a corte não poderia deixar de causar profundo impacto no jovem artista, então com 25 anos. E este impacto seria claramente sentido em suas obras também, como é de se esperar. Sua capacidade de transformar fantasias e emoções em obras era ímpar, exigindo profundo conhecimento técnico ao mesmo tempo que uma criatividade peculiar, combinação bastante rara. E após o arriscado passo de independência, essa genialidade floresceu com mais força ainda. O gosto nas artes era ditado pelo consenso dos poderosos, e a música não existia primariamente para expressar ou evocar sentimentos das pessoas individualmente. A sua função precípua era agradar aos senhores da classe dominante. Tais amarras cortavam as asas do sonhador Mozart, cuja personalidade era fortemente marcada por sentimentos agressivos em relação aos aristocratas. O tratamento recebido do arcebispo de Salzburgo, que o encarava como um serviçal qualquer, era mortal para seu espírito criador. Ciente de seu próprio valor, passou a ser insuportável permanecer ali. Ele chegou a escrever para seu pai: “Não é Salzburgo, mas o príncipe e sua presunçosa nobreza que a cada dia se tornam mais intoleráveis para mim”. Foi assim que o “gênio burguês” desafiou a música artesanal da corte e toda a concepção da profissão de músico daquele tempo. Um individualista contra uma prisão aristocrática. Um homem à frente do seu tempo, com um forte anseio por liberdade. E com as mudanças radicais que tal tipo de mentalidade iria produzir na frente, a nobreza ociosa seria profundamente ameaçada pelos conceitos de trabalho e individualismo da burguesia. Com o advento do capitalismo, essa aristocracia daria praticamente seu suspiro final. E atualmente, qualquer um pode se dar ao luxo de comprar, por cerca de dez reais, um CD de Mozart, tendo acesso às sinfonias e óperas deste grande compositor. É a massificação daquilo que antes era uma regalia de poucos nobres, que ainda por cima dominavam as formas de composição dos artistas. Agora, é evidente que com a maior liberdade vem a maior diversidade, assim como a massificação não garante a qualidade das obras. Tem para todos os gostos! Portanto, assim como qualquer indivíduo hoje, por mais humilde que seja, pode se dar ao luxo de escutar uma bela sinfonia de Mozart, graças ao progresso capitalista, esse mesmo sujeito pode preferir escutar a Tati Quebra-Barraco. Mas quem sou eu para querer impor minhas preferências particulares?! Afinal, gosto não se discute. Se lamenta…

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