Lula chorou de novo. Estava emocionado diante de centenas de milhares de trabalhadores, reunidos a um custo de quase R$ 2 milhões em verbas estatais para uma festa privada, incluindo brindes como automóveis e apartamentos. É mesmo de chorar. Esse inesquecível Primeiro de Maio começou no dia 29 de abril, quando o presidente convocou cadeia de rádio e TV para esquentar os tamborins. Com seu pronunciamento oficial ligeiramente fora de época, Lula inaugurou a micareta trabalhista.

Inteiramente desinibido no uso das prerrogativas de chefe da nação em benefício próprio, o presidente entrou em rede nacional – que serve para assuntos prementes de Estado – com sua prosa de bar. “Algo me diz que este modelo de governo está apenas começando. Algo me diz, fortemente, em meu coração, que este modelo vai prosperar.” E completou a charada dizendo que o povo saberá tomar as decisões corretas.

Algo me diz que Lula convocou cadeia nacional para fazer comício para Dilma Rousseff, deve ter imaginado o telespectador menos distraído.

“Vocês sabem quem eu quero”, bradou o presidente no sabadão sindical. Sim, sabemos. O TSE também está careca de saber, como comprovam as multas aplicadas a Lula por campanha fora de hora, em sua longa micareta eleitoral. Sua Excelência o infrator desdenha das multas em público – afinal, o que são R$ 10 mil? Não mais que uma unha encravada, no famoso jargão delubiano. Lula não quer nada demais, apenas comemorar o Primeiro de Maio em abril, vender sua Dilma em horário alternativo e fazer comício dia sim, outro também.

O Brasil parece ter decidido que é melhor não contrariar. O presidente faz o que quer, diz o que lhe dá na telha, a qualquer hora. Sua língua presa é a mais solta do país: “sifu”, “merda”, “ponto G”… No Dia do Trabalho, anunciou que seu ego não vai mais “caber nas calças”. Deve ser o ponto L.

Ninguém o recrimina. Dir-se-ia que a patrulha politicamente correta, que já não permite nem que se chame alguém por aí de “bicha”, não tem ouvidos para o ex-operário. Assim como jogador de futebol pode desfilar com traficante armado na “comunidade”, a origem pobre de Lula o absolve de tudo. Recentemente, foi preso um dos “aloprados” da brigada suja do presidente em 2006, metido em nova negociata. Não respingou uma gota de lama no líder supremo. Ficha limpa é isso aí.

Mimado pelos brasileiros, Lula chora. No comício do Primeiro de Maio em São Paulo, as lágrimas reapareceram com seu pretexto preferido: o enredo do metalúrgico que interrompeu 500 anos de governo dos patrões. Era o filho do Brasil turbinando ao vivo seu próprio mito. E se jactando, com o ego a lhe arrebentar as calças, de sua inclusão entre os mais influentes da revista Time – pelas mãos de um cineasta panfletário que apresenta o falido Fome Zero como futuro da humanidade.

Não há mais dúvidas: Lula tornou-se um herói empalhado. Como tal, é imune às coisas da vida.

Mas pode-se encontrar em Freud (não o aloprado, o outro) razões distintas para o choro. Lula falava em tom de despedida do mandato. É bem verdade que ainda faltam oito meses (o Plano Real foi executado em menos tempo), mas para essa tarefa enfadonha de governar ele tem o Banco Central. Na caminhada final sobre as águas de seu comício eterno, o presidente pode ter chorado de medo.

Medo de ver a carruagem populista virar abóbora. Medo de não poder mais estalar os dedos e ver as inesgotáveis verbas públicas fazer a cama de seu partido e a alegria de seus companheiros. Temor de não poder mais acordar invocado e ressuscitar o monstro da Telebrás, a qual poderá encher de aloprados por alguns bilhões de reais – e ainda sair dizendo ao povo que está combatendo as privatizações neoliberais.

Como era doce, essa vida. O jeito é continuar pedindo ao povo que faça “este modelo prosperar”. Vem mais choro aí.

(“Época” – 08/05/2010)

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