O antiamericanismo servia de norte para as esquerdas latino-americanas. Obama está mudando isso

– “Não quero exagerar no grau do sentimento antiamericano. Eu acho que essas coisas têm altos e baixos. E isso não apareceu só no governo Bush. Isso data da Doutrina Monroe.” Barack Obama anunciou, com essas palavras, proferidas no México dias antes da abertura da 5ª Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago, uma nova rota para a política hemisférica dos EUA. Na sequência, seu governo flexibilizava o embargo a Cuba, eliminando restrições às viagens e remessas de dinheiro de cubano-americanos à ilha e permitindo negócios de empresas de telecomunicações americanas no país caribenho. A iniciativa confundiu Hugo Chávez, deflagrando uma saraivada de reações verbais desordenadas.

Os preços exorbitantes do petróleo e um antiamericanismo ainda mais exorbitante eram os principais ativos estratégicos do Mussolini de Caracas na sua política latino-americana. As rendas petrolíferas, desviadas para financiar governos aliados, sustentaram a criação da Alba (Alternativa Bolivariana das Américas), o grupo “bolivariano” articulado em torno do eixo Caracas-Havana. O antiamericanismo funcionou como um programa substituto, colando com uma gosma de negatividade absoluta os fragmentos das esquerdas latino-americanas carentes de um norte positivo. A crise global derrubou as cotações petrolíferas. O advento de Obama, no lugar do universalmente odiado Bush, começa a esvaziar a audiência que se reunia para ouvir os insultos chavistas dirigidos ritualmente ao “império”.

Chávez falou sem parar, mas ninguém entendeu. Primeiro, declarou desejar que a Cúpula das Américas marque um “reinício” nas relações com os EUA e fez saber que ouviria o que Obama tem a dizer. Depois, simpático como de costume, classificou o presidente americano como um “pobre homem ignorante” e prometeu deflagrar em Trinidad e Tobago um “bombardeio” que se ouviria em Caracas, à distância de 590 quilômetros. Como prelúdio, coordenou uma reunião da Alba destinada, em mais uma de suas típicas metáforas bélicas, a “afinar a artilharia” do grupo antiamericano.

Cuba estava no alto da “agenda não escrita” da Cúpula, segundo o ministro brasileiro Celso Amorim. O diagnóstico não expressava o desejo de Obama, mas traduzia com precisão a tática de Chávez. No conclave da Alba, o venezuelano, um homem sempre disposto a arrostar o ridículo, classificou Cuba como “mais democrática” que os EUA. Enquanto ele falava, o blogueiro cubano Reinaldo Escobar, um jornalista que escreveu durante anos na publicação oficial Juventud Rebelde, confessava a sua “tremenda vergonha” por viver “em uma nação na qual uma pessoa como Adolfo Fernández Sainz compartilha uma cela com delinquentes comuns, Pedro Arguelles passou por um calabouço de castigo por se negar a trajar o uniforme de preso, Pablo Pacheco, como quase todos, deixou de ser um indivíduo saudável”.

Obama convidou o regime dos Castros a oferecer, como contrapartida à amenização do embargo, a liberalização das viagens de cubanos ao exterior. A secretária de Estado Hillary Clinton foi além, pedindo nada menos que a libertação dos presos políticos e a implantação da democracia na ilha do partido único. Yoani Sánchez, outra blogueira que, como Escobar, vive em Havana e coloca nome próprio e foto no seu blog, referiu-se da seguinte forma à ampliação dos intercâmbios com os EUA: “Curiosamente, não vejo ninguém nas ruas angustiado com essas possíveis mudanças. O nervosismo só o têm aqueles que usaram a confrontação para se manter no poder”. Celso Amorim preferiu dizer que os EUA não devem condicionar seus próximos passos a contrapartidas cubanas. O ministro nunca renuncia à indecência: a sua opinião razoável não foi acompanhada por um razoável pedido de que Cuba respeite, incondicionalmente, os direitos dos próprios cubanos.

“E por que Cuba não está presente? Esta será nossa primeira pergunta”, esclareceu Chávez, indicando o alvo de seus obuses inteligentes na Cúpula de Trinidad e Tobago. Cuba não foi convidada, pois a conferência realiza-se no quadro da OEA, da qual Cuba está suspensa desde a Crise dos Mísseis, de 1962. Criada na Guerra Fria, a organização regional reinventou-se nos anos 90, dotando-se de uma Carta Democrática e construindo um sistema interamericano de direitos humanos. Para readquirir suas prerrogativas na OEA, Cuba teria de subordinar-se às normas da Carta Democrática. Num artigo publicado dias atrás, Fidel Castro classificou a OEA como “lixo”, assegurando que “nós não queremos sequer escutar o infame nome” da organização.

No roteiro desenhado pela reunião da Alba, Cuba é um pretexto. O projeto “bolivariano” consiste em erguer um muro geopolítico separando o “império” da América Latina. A OEA, ponte entre as duas Américas, “deve desaparecer”, exclamou Raúl Castro na Venezuela, ao lado de um Evo Morales que proclamou, na condição de “marxista-leninista”, seu desejo de ser expulso da organização. Chávez, por sua vez, anunciou a intenção de “vetar” a declaração final preparada previamente para a cúpula. O parágrafo intolerável declara a adesão geral aos princípios da OEA, um modo oblíquo de fazer referência à democracia.

Um bloco unido contra os EUA? Não tão unido quanto sugerem as aparências. Na moldura de uma disputa de poder cada vez menos oculta nas altas esferas do PC cubano, Raúl Castro informou estar disposto a “discutir tudo: direitos humanos, liberdade de imprensa e presos políticos” com Obama. O “eterno segundo” de Fidel opera num campo minado, lançando invectivas contra a OEA, mas evitando lacrar-se com Chávez no caixote fissurado do antiamericanismo.

Na hora em que se reuniam os prolixos líderes da Alba, Lula falava ao telefone com o presidente americano para, discretamente, “afinar a artilharia” daqueles que almejam frustrar o projeto “bolivariano”. Há cem anos, o Barão do Rio Branco enviou Joaquim Nabuco para inaugurar a primeira embaixada brasileira no exterior, justamente em Washington. Na sua visão, as Américas eram três – EUA, Brasil e América Hispânica – e o Brasil deveria ocupar tanto o lugar de parceiro dos EUA quanto a função de mediador entre a superpotência e as “turbulentas repúblicas hispânicas”. Lula e Celso Amorim contam todos os dias a fábula de que inauguraram, no mármore branco, uma nova política externa. Não acreditem neles: é conversa para enrolar PT.

(O Estado de SP – 18/04/2009)

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